22/05/2018

CHUÍ - Parte I


Prezados,


“Do Oiapoque ao Chuí”.  Este bordão está tão incorporado em nossa língua (...)  brasileira que, mesmo tendo deixado de ser verdade, segue altaneiro na memória de nossa gente, no uso dia a dia, nas conversas, na imprensa, etc. Convém lembrar que o extremo norte deixou de ser o rio Oiapoque, no Amapá. Agora é um monte em Roraima.
Curioso! Por que não se fala “da Ponta Seixas ao...”? Os extremos leste-oeste parecem não importar a ninguém!

E por que quero falar do Chuí, sendo dos quatro pontos o único extremo geográfico verdadeiro e de uso corriqueiro? Porque tem muito a ver comigo, com minha história de vida.

Começa que sou um sulista muito sulista, na imensidão do Brasil nasci a apenas 250 km de lá. Menos do que a distância à “minha” capital, Porto Alegre. Frequento e frequentei muito, desde criança. Nasci em outro extremo, este histórico: sou “papareia”, de Rio Grande, a gloriosa “São Pedro do Rio Grande do Sul”, onde se iniciou a colonização do estado. E também porque entendo que existem aspectos diversos, físicos, culturais, históricos, que valem a pena serem compartilhados.

Começo pela lembrança remota, de criança, da “rodovia” ligando as duas cidades.  Estrada de terra, tão esburacada que o odômetro marcava muito mais do que os 250 km. Porque a viagem era em “zig-zag” para desviar dos buracos maiores e pelos milhares de pequenos aumentos de percurso por cada buraco que as rodas “percorriam”.

Afora este desconforto, o trajeto era fascinante. A imensidão dos campos com todos os tons de verde na planura total da região nos dá uma sensação de infinito. Os animais no pasto e a maravilhosa passagem por uma das mais belas obras de Deus e que felizmente está muito bem preservada, a chamada Estação Ecológica do Taim, também conhecida como “Pantanal Gaúcho”, onde a velocidade é obrigatoriamente reduzida.

Hoje a rodovia é asfaltada, com grandes e monótonos retões, mas a beleza da região segue intocada.
Esta, no entanto, não é a única via de ligação terrestre. A outra, utilizada desde sempre, é a imensa praia, contínua desde a entrada do  canal da barra de Rio Grande (canal que liga o Oceano Atlântico à Lagoa dos Patos) até o arroio Chuí, com cerca de 230 km de extensão.


Os veículos trafegam à beira-mar, onde a areia é lisa e dura, permitindo velocidades acima de 100 km/h. No entanto, a passagem pela praia não é livre de forma contínua. Depende de diversos fatores físicos, como ventos, chuvas, marés, conformação das dunas, etc.

A região é riquíssima em piscosidade, e os pescadores sempre foram os grandes conhecedores das condições de tráfego e da previsão para as horas seguintes. Os leigos (como eu), antes de se aventurarem, consultavam os pescadores no chamado “Barracão”, onde sempre eram encontrados. Este percurso ainda continua sendo absolutamente deserto em cerca de 200 km.

Existem vilas apenas nas  proximidades dos extremos: a Praia do Cassino, no Município de Rio Grande. Hermenegildo (Hermena, para os íntimos), no Município de Santa Vitória do Palmar, cerca de 15 km antes da divisa Brasil-Uruguai e a Barra do Chuí, no Município de Chuí, que há alguns anos era parte de Santa Vitória.

Nós, os rio-grandinos (da cidade de Rio Grande, diferente de rio-grandenses, do estado) falamos com muito orgulho de nossa “Praia do Cassino, a maior do mundo em extensão”. O Guinness, em suas listas de recordes, confirma esta condição. Existem divergências, ora pelos vizinhos do Hermena/Santa Vitória, ora por parte de meu prezado amigo e competente jornalista e historiador Willy Cesar, tentando “desconstruir mitos” sobre Rio Grande. Que vença a verdade, apesar de minha vaidade “papareia” preferir a versão Guinness!

Tenho algumas experiências vividas nos dois percursos.   Carro atolado é a mais comum.  Frequentei muito nossa praia o Cassino, mesmo antes de termos casa própria lá (apesar de um terreno adquirido em 1953, “virou” casa somente em 1981, graças ao nascimento de nossas filhas Cibele e Nani, providenciada pelos avós para combater a “concorrência” das praias catarinenses nas férias de verão).

Os 23 km Rio Grande-Cassino eram vencidos ora por trem, por ônibus ou pela poderosa Raleigh, nossa velha bicicleta, sempre com uma turminha do Colégio São Francisco. Numa dessas decidimos “esticar” até Chuí, via praia. Acampamos por uma noite, com barracas, e assistimos a um espetáculo de grande beleza. Em região completamente deserta, surgiu um grupo religioso tipo macumba, com música, canto, danças e iluminação por fogueiras. O efeito do contraste com o mar, a luz do luar e a imensa praia é magnífico e indescritível.

Quando mudei para São Paulo, como aluno interno no Arquidiocesano, fiz como trabalho de Português uma redação com o relato desta história. Quando a ALAEP, a academia literária do colégio, fez um concurso para novos membros, não cogitei de me inscrever, mas o Irmão Ático Rubini disse que eu deveria fazê-lo. Retruquei que não tinha nenhum material feito para a chamada “defesa de tese”, e ele disse para colocar a redação acima citada. Até me transformou num “gênio” que nunca pensei ser, graças ao título.

Eu havia colocado “Pedalando pelas praias sulinas”, que ele considerou genial, pois o ato de pedalar representa uma repetição que eu já coloco no título, ao usar três palavras iniciadas com “P”. Estes literatos pensam cada coisa...

Uma vez fomos passear e visitar parentes no Uruguai, via praia; estavam minha mãe, meu irmão Camil, o José Curi (“Zé Coruja”), e um parente do Líbano em visita ao Brasil, Georges Nassar (ou Jorge);  este era um intelectual, filósofo, escritor. Às 7 da manhã o pescador nos indicou bom caminho por cerca de 3 horas e meia, suficiente para chegarmos ao Chuí.

Depois teria mudança de vento, viria o temido vento sul, e chuva. Mas, sabe o garoto que nos oferece amendoim grátis na mesa do bar frente à praia, para depois voltar vendendo? A natureza exuberante fez isto conosco! Ofereceu uma praia maravilhosa, infinita, muito sol, só nossa com seus cerca de 200m de largura e muitos km de extensão, algo absolutamente novo e fascinante para um libanês. Impossível resistir! E impossível acreditar no que o pescador havia dito, mesmo sabendo de sua competência e conhecimento. Foram banhos de mar deliciosos, uma festa para o primo visitante.

Resultado, o previsto: chegou o temido vento, a chuva, o fim da faixa de praia trafegável, o carro sendo “empurrado” para as dunas; era um carro americano, Lincoln Continental 49, feito para as rodovias americanas, com o padrão Ford da época, distribuidor “lá em baixo”, que logo molhou-se e o carro pifou. Por sorte achamos, não muito longe, um ermitão vivendo isolado, com um carro dos anos 20, sem os pneus; recolocou-os, pediu um absurdo de dinheiro para nos rebocar até o Hermena, e lá fomos.

Uma imagem cômica, um carro com mais de 30 anos de idade rebocando um “novíssimo” de apenas 9 anos. No Hermena ficamos numa pousadinha bem primitiva, pois o mecânico só iria atender no dia seguinte. Uma festa para o Jorge, que entre outras peripécias barbeou-se usando a cristalina água do córrego como espelho!

Voltando ao Líbano, publicou um artigo em revista de grande circulação, narrando o ocorrido com muito entusiasmo, sob o título “Une aventure au  Sud du Brésil, sur la côte de l´Atlantique” – Uma Aventura no Sul do Brasil, na Costa do Atlântico.  

Essas e outras lembranças continuam na próxima postagem (CHUÍ - Parte II)

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