Prezados,
“Do Oiapoque ao Chuí”. Este
bordão está tão incorporado em nossa língua (...) brasileira que, mesmo tendo deixado de ser
verdade, segue altaneiro na memória de nossa gente, no uso dia a dia, nas conversas,
na imprensa, etc. Convém lembrar que o extremo norte deixou de ser o rio
Oiapoque, no Amapá. Agora é um monte em Roraima.
Curioso! Por que não se fala “da Ponta Seixas ao...”? Os extremos
leste-oeste parecem não importar a ninguém!
E por que quero falar do Chuí, sendo dos quatro pontos o único extremo
geográfico verdadeiro e de uso corriqueiro? Porque tem muito a ver comigo, com
minha história de vida.
Começa que sou um sulista muito sulista, na imensidão do Brasil nasci a
apenas 250 km de lá. Menos do que a distância à “minha” capital, Porto Alegre.
Frequento e frequentei muito, desde criança. Nasci em outro extremo, este
histórico: sou “papareia”, de Rio Grande, a gloriosa “São Pedro do Rio Grande
do Sul”, onde se iniciou a colonização do estado. E também porque entendo que
existem aspectos diversos, físicos, culturais, históricos, que valem a pena
serem compartilhados.
Começo pela lembrança remota, de criança, da “rodovia” ligando as duas
cidades. Estrada de terra, tão
esburacada que o odômetro marcava muito mais do que os 250 km. Porque a viagem
era em “zig-zag” para desviar dos buracos maiores e pelos milhares de pequenos
aumentos de percurso por cada buraco que as rodas “percorriam”.
Afora este desconforto, o trajeto era fascinante. A imensidão dos
campos com todos os tons de verde na planura total da região nos dá uma
sensação de infinito. Os animais no pasto e a maravilhosa passagem por uma das
mais belas obras de Deus e que felizmente está muito bem preservada, a chamada
Estação Ecológica do Taim, também conhecida como “Pantanal Gaúcho”, onde a
velocidade é obrigatoriamente reduzida.
Hoje a rodovia é asfaltada, com grandes e monótonos retões, mas a
beleza da região segue intocada.
Esta, no entanto, não é a única via de ligação terrestre. A outra,
utilizada desde sempre, é a imensa praia, contínua desde a entrada do canal da barra de Rio Grande (canal que liga
o Oceano Atlântico à Lagoa dos Patos) até o arroio Chuí, com cerca de 230 km de
extensão.
Os veículos trafegam à beira-mar, onde a areia é lisa e dura,
permitindo velocidades acima de 100 km/h. No entanto, a passagem pela praia não
é livre de forma contínua. Depende de diversos fatores físicos, como ventos,
chuvas, marés, conformação das dunas, etc.
A região é riquíssima em piscosidade, e os pescadores sempre foram os
grandes conhecedores das condições de tráfego e da previsão para as horas
seguintes. Os leigos (como eu), antes de se aventurarem, consultavam os
pescadores no chamado “Barracão”, onde sempre eram encontrados. Este percurso
ainda continua sendo absolutamente deserto em cerca de 200 km.
Existem vilas apenas nas
proximidades dos extremos: a Praia do Cassino, no Município de Rio
Grande. Hermenegildo (Hermena, para os íntimos), no Município de Santa Vitória
do Palmar, cerca de 15 km antes da divisa Brasil-Uruguai e a Barra do Chuí, no
Município de Chuí, que há alguns anos era parte de Santa Vitória.
Nós, os rio-grandinos (da cidade de Rio Grande, diferente de
rio-grandenses, do estado) falamos com muito orgulho de nossa “Praia do
Cassino, a maior do mundo em extensão”. O Guinness, em suas listas de recordes,
confirma esta condição. Existem divergências, ora pelos vizinhos do
Hermena/Santa Vitória, ora por parte de meu prezado amigo e competente
jornalista e historiador Willy Cesar, tentando “desconstruir mitos” sobre Rio
Grande. Que vença a verdade, apesar de minha vaidade “papareia” preferir a
versão Guinness!
Tenho algumas experiências vividas nos dois percursos. Carro atolado é a mais comum. Frequentei muito nossa praia o Cassino, mesmo
antes de termos casa própria lá (apesar de um terreno adquirido em 1953,
“virou” casa somente em 1981, graças ao nascimento de nossas filhas Cibele e
Nani, providenciada pelos avós para combater a “concorrência” das praias catarinenses
nas férias de verão).

Quando mudei para São Paulo, como aluno interno no Arquidiocesano, fiz
como trabalho de Português uma redação com o relato desta história. Quando a
ALAEP, a academia literária do colégio, fez um concurso para novos membros, não
cogitei de me inscrever, mas o Irmão Ático Rubini disse que eu deveria fazê-lo.
Retruquei que não tinha nenhum material feito para a chamada “defesa de tese”,
e ele disse para colocar a redação acima citada. Até me transformou num “gênio”
que nunca pensei ser, graças ao título.
Eu havia colocado “Pedalando pelas praias sulinas”, que ele considerou
genial, pois o ato de pedalar representa uma repetição que eu já coloco no
título, ao usar três palavras iniciadas com “P”. Estes literatos pensam cada
coisa...
Uma vez fomos passear e visitar parentes no Uruguai, via praia; estavam
minha mãe, meu irmão Camil, o José Curi (“Zé Coruja”), e um parente do Líbano
em visita ao Brasil, Georges Nassar (ou Jorge);
este era um intelectual, filósofo, escritor. Às 7 da manhã o pescador
nos indicou bom caminho por cerca de 3 horas e meia, suficiente para chegarmos
ao Chuí.
Depois teria mudança de vento, viria o temido vento sul, e chuva. Mas, sabe
o garoto que nos oferece amendoim grátis na mesa do bar frente à praia, para
depois voltar vendendo? A natureza exuberante fez isto conosco! Ofereceu uma
praia maravilhosa, infinita, muito sol, só nossa com seus cerca de 200m de
largura e muitos km de extensão, algo absolutamente novo e fascinante para um libanês.
Impossível resistir! E impossível acreditar no que o pescador havia dito, mesmo
sabendo de sua competência e conhecimento. Foram banhos de mar deliciosos, uma
festa para o primo visitante.
Resultado, o previsto: chegou o temido vento, a chuva, o fim da faixa
de praia trafegável, o carro sendo “empurrado” para as dunas; era um carro
americano, Lincoln Continental 49, feito para as rodovias americanas, com o
padrão Ford da época, distribuidor “lá em baixo”, que logo molhou-se e o carro
pifou. Por sorte achamos, não muito longe, um ermitão vivendo isolado, com um
carro dos anos 20, sem os pneus; recolocou-os, pediu um absurdo de dinheiro
para nos rebocar até o Hermena, e lá fomos.
Uma imagem cômica, um carro com mais de 30 anos de idade rebocando um
“novíssimo” de apenas 9 anos. No Hermena ficamos numa pousadinha bem primitiva,
pois o mecânico só iria atender no dia seguinte. Uma festa para o Jorge, que
entre outras peripécias barbeou-se usando a cristalina água do córrego como
espelho!
Voltando ao Líbano, publicou um artigo em revista de grande circulação,
narrando o ocorrido com muito entusiasmo, sob o título “Une aventure au Sud du Brésil, sur la côte de l´Atlantique” –
Uma Aventura no Sul do Brasil, na Costa do Atlântico.
Essas e outras lembranças continuam na próxima postagem (CHUÍ - Parte II)
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