Passar mais de dois meses no Japão efetuando contatos
técnicos e estudos de Engenharia foram uma das melhores experiências que um
profissional pode ter. Eu tive esse privilégio, viajando a serviço da Cia. do
Metrô de São Paulo.
Ao enriquecimento técnico soma-se uma imensa experiência de
vida, como resultado do conhecimento e
convivência com um povo que conseguiu de forma invejável unir sua cultura
milenar com um fantástico desenvolvimento tecnológico e econômico, sem perder
seus valores e suas tradições.
E isto ocorreu em uma época – década 1970 – em que o mundo
ainda não era globalizado como hoje. A “aldeia global” de Marshall Mc Luhan
ainda era quase uma ficção e, portanto, o conhecimento sobre o Japão aqui no
Brasil era muito limitado. Fui, na verdade, para “outro lado do mundo”.
Minha relação com Metrô de São Paulo é muito anterior ao meu
ingresso na Companhia. Sempre tive interesse no assunto, li e estudei muito,
até no início das obras da primeira linha. Eu compareci na atual Estação São
Judas, cerca de três anos antes de iniciar na Cia. em 1971.
À época eu conhecia todos os projetos propostos
anteriormente para implantação do sistema metroviário em São Paulo. Fui
“descoberto” pelo Eng. Walter Nimir e convidado para a função de Analista de
Projetos na área de estruturas. Sendo uma empresa estatal nova, apesar de muito
bem estruturada tinha uma deficiência técnico-operacional: as diversas áreas
técnicas especializadas trabalhavam de forma autônoma e quase estanque. Por
minhas características pessoais de forma de atuar fui automaticamente e, face à
necessidade, “invadindo” e efetuando a coordenação de várias áreas. Outro
colega, Eng. Elias Guerra, tinha característica semelhante e logo tornou-se
evidente a necessidade de criação formal do cargo de coordenador cujos
primeiros ocupantes fomos nós dois, Guerra e eu.
Em 1975 a Companhia recebeu um convite do Governo Japonês
para indicar um participante para um curso-estágio sobre Engenharia Metroviária
e que fez o mesmo convite para o Metrô do Rio de Janeiro, então em fase inicial
de implantação.
Nesta época o Metrô de São Paulo já tinha dispensado a assessoria
feita na primeira linha pela HMD, consórcio de empresas alemãs com uma
brasileira, e a engenharia brasileira assumiu a implantação das linhas seguintes.
Isto gerou um grande investimento em formação e treinamento para os técnicos da
Companhia, levando a uma grande convivência com os metrôs de muitos países.
Então fui indicado para o Japão, assim como o foi o Eng. Adhemar de Mesquita
Rocha pelo metrô do Rio de Janeiro. Obviamente minha função de coordenação teve
influência direta nesta escolha.
Comunicado de minha indicação, de início recusei a missão.
Olga e eu estávamos em um momento traumático, há menos de um ano nossa primeira
filha havia falecido com apenas 1 dia de vida e por isto não quis deixa-la por
quase 2 meses. Comuniquei a direção e minhas razões foram bem aceitas e com
muita sensibilidade. O período previsto para essa missão seria de 58 dias.
Como os Diretores a época consideravam muito importante
minha participação, foi feita uma extensão para algumas visitas técnicas
complementares, o que superou 60 dias de permanência. Pelas normas da Companhia, que eu desconhecia,
este período dava direito a acompanhante com os custos pagos. Além do
Presidente Plínio Assmann e de Diretores, teve influência notável nesta
indicação meu superior hierárquico imediato, Antônio Maria CLARET Reis de
Andrade.
Aproveitando o bilhete aéreo pela JAL, Japan Air Lines,
pagando uma pequena diferença de tarifa alterei o roteiro de volta e paramos em
várias cidades. A ida foi via EUA e Oceano Pacífico e a volta, via sudeste
asiático e Europa.
Foram cerca de quatro meses de preparativos. Entre muitas
providências preliminares, aí vão algumas:
-Cursinho: a Olga frequentava então o preparatório para o
vestibular. Desistiu, abrindo mão do contato diário com professores marcantes
que formavam a brilhante equipe que o Curso Objetivo havia montado. E a
Medicina, com certeza, perdeu uma futura excelente profissional.
-Speak English: a língua oficial dos contatos seria o
inglês, do qual eu possuía então um conhecimento basiquinho, aquele estudado no
colégio e um pouco aprimorado com leituras técnicas e literárias e com filmes. Fiz um curso com fitas cassete,
emprestado pelo colega do Metrô e bom amigo Damer Tufaile, o Dinamic English
Course. Foi muito proveitoso, ensaiei e aprimorei muito com as fitas gravadas.
(NB: não sou propagandista nem vendedor
de curso de inglês com fitas.)
-Jorge Yamashita: engenheiro na Cia. do Metrô, figura ímpar.
Nissei, tem um conhecimento global sobre o Japão que supera o dos próprios
nativos. Foi programado para estarmos juntos lá por um período menor que o meu,
para visitas e estudos sobre um método construtivo específico para túneis, o
“shield”, popularmente conhecido como “tatuzão”. Já havia estado lá diversas
vezes, fala e escreve correntemente o idioma, no qual até compõe poesias, e lá
pronuncia palestras, recebe homenagens, e muito mais. Foi meu professor de
história, cultura, usos e costumes, e alimentação com aulas práticas em
restaurantes no bairro da Liberdade, onde se concentram as colônias japonesa,
coreana, chinesa e afins.
-Graças às “aulas” do Yamashita, soube do uso intensivo de
troca de cartões de visita. Ao conhecer alguém, não é usado o aperto de mãos,
mas uma rápida e leve inclinação e a troca de cartões; é dado com a mão direita
e recebido simultaneamente com a esquerda. Levei 500 cartões em português e
inglês, mas foram insuficientes. Precisei imprimir mais por lá.
-Tadashi Nakagawa: metroviário, bom amigo, brilhante
engenheiro na área eletro-eletrônica, fez estágio antes de mim pelo mesmo órgão
do Governo Japonês, a JICA. Ilustrou-me com informações e detalhes
fundamentais.
-Super Eva: secretária em nosso setor na Companhia, era
famosa por sua eficiência, aliada a uma grandeza humana fascinante. Preparou-me
um material para viagem fantástico, completíssimo, cobrindo todas as minhas
necessidades e imprevistos.
Para cada país e cidade visitados, tinha todas as
informações para comunicação via telefone e telex, todos os contatos bancários,
todos os consulados e embaixadas brasileiros, e muito mais! A Eva foi a responsável
pela tranquilidade e sucesso desta viagem; tudo foi perfeito.
Tudo preparado, no último fim de semana, antes de viajar,
fomos a Rio Grande para nos despedirmos de meus pais e irmãos, e receber
orientações sobre os parentes a serem visitados no Líbano, parte do roteiro de
volta. Um dos pedidos, do meu pai causou forte emoção em todos. Ele havia saído
do Líbano há mais de 60 anos, e não retornou nenhuma vez. Então solicitou que trouxéssemos, da casa
onde ele nasceu e morou, uma fruta que daria na época em que estaríamos lá,
além de um pouco de terra e pedras do quintal para colocar em seu caixão quando
viesse a falecer.
Com tudo pronto, fomos para o embarque no dia 23 de junho em
Congonhas. A época não existia o Aeroporto de Guarulhos (apenas Cumbica, para
operações militares). Uma viagem ao Japão, então, era tão rara que familiares e
amigos, cerca de 30 pessoas, estavam no aeroporto para as despedidas. Ali
começava uma experiência profissional e de vida inesquecíveis.
Que saudades!
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