09/05/2018

Japão - Preparativos



Prezados,


Passar mais de dois meses no Japão efetuando contatos técnicos e estudos de Engenharia foram uma das melhores experiências que um profissional pode ter. Eu tive esse privilégio, viajando a serviço da Cia. do Metrô de São Paulo.
Ao enriquecimento técnico soma-se uma imensa experiência de vida, como resultado do  conhecimento e convivência com um povo que conseguiu de forma invejável unir sua cultura milenar com um fantástico desenvolvimento tecnológico e econômico, sem perder seus valores e suas tradições.

E isto ocorreu em uma época – década 1970 – em que o mundo ainda não era globalizado como hoje. A “aldeia global” de Marshall Mc Luhan ainda era quase uma ficção e, portanto, o conhecimento sobre o Japão aqui no Brasil era muito limitado. Fui, na verdade, para “outro lado do mundo”.
Minha relação com Metrô de São Paulo é muito anterior ao meu ingresso na Companhia. Sempre tive interesse no assunto, li e estudei muito, até no início das obras da primeira linha. Eu compareci na atual Estação São Judas, cerca de três anos antes de iniciar na Cia. em 1971.

À época eu conhecia todos os projetos propostos anteriormente para implantação do sistema metroviário em São Paulo. Fui “descoberto” pelo Eng. Walter Nimir e convidado para a função de Analista de Projetos na área de estruturas. Sendo uma empresa estatal nova, apesar de muito bem estruturada tinha uma deficiência técnico-operacional: as diversas áreas técnicas especializadas trabalhavam de forma autônoma e quase estanque. Por minhas características pessoais de forma de atuar fui automaticamente e, face à necessidade, “invadindo” e efetuando a coordenação de várias áreas. Outro colega, Eng. Elias Guerra, tinha característica semelhante e logo tornou-se evidente a necessidade de criação formal do cargo de coordenador cujos primeiros ocupantes fomos nós dois, Guerra e eu.

Em 1975 a Companhia recebeu um convite do Governo Japonês para indicar um participante para um curso-estágio sobre Engenharia Metroviária e que fez o mesmo convite para o Metrô do Rio de Janeiro, então em fase inicial de implantação.

Nesta época o Metrô de São Paulo já tinha dispensado a assessoria feita na primeira linha pela HMD, consórcio de empresas alemãs com uma brasileira, e a engenharia brasileira assumiu a implantação das linhas seguintes. Isto gerou um grande investimento em formação e treinamento para os técnicos da Companhia, levando a uma grande convivência com os metrôs de muitos países. Então fui indicado para o Japão, assim como o foi o Eng. Adhemar de Mesquita Rocha pelo metrô do Rio de Janeiro. Obviamente minha função de coordenação teve influência direta nesta escolha.

Comunicado de minha indicação, de início recusei a missão. Olga e eu estávamos em um momento traumático, há menos de um ano nossa primeira filha havia falecido com apenas 1 dia de vida e por isto não quis deixa-la por quase 2 meses. Comuniquei a direção e minhas razões foram bem aceitas e com muita sensibilidade. O período previsto para essa missão seria de 58 dias.

Como os Diretores a época consideravam muito importante minha participação, foi feita uma extensão para algumas visitas técnicas complementares, o que superou 60 dias de permanência.  Pelas normas da Companhia, que eu desconhecia, este período dava direito a acompanhante com os custos pagos. Além do Presidente Plínio Assmann e de Diretores, teve influência notável nesta indicação meu superior hierárquico imediato, Antônio Maria CLARET Reis de Andrade.

Aproveitando o bilhete aéreo pela JAL, Japan Air Lines, pagando uma pequena diferença de tarifa alterei o roteiro de volta e paramos em várias cidades. A ida foi via EUA e Oceano Pacífico e a volta, via sudeste asiático e Europa.

Foram cerca de quatro meses de preparativos. Entre muitas providências preliminares, aí vão algumas:
-Cursinho: a Olga frequentava então o preparatório para o vestibular. Desistiu, abrindo mão do contato diário com professores marcantes que formavam a brilhante equipe que o Curso Objetivo havia montado. E a Medicina, com certeza, perdeu uma futura excelente profissional.

-Speak English: a língua oficial dos contatos seria o inglês, do qual eu possuía então um conhecimento basiquinho, aquele estudado no colégio e um pouco aprimorado com leituras técnicas e literárias e  com filmes. Fiz um curso com fitas cassete, emprestado pelo colega do Metrô e bom amigo Damer Tufaile, o Dinamic English Course. Foi muito proveitoso, ensaiei e aprimorei muito com as fitas gravadas. (NB: não sou  propagandista nem vendedor de curso de inglês com fitas.)

-Jorge Yamashita: engenheiro na Cia. do Metrô, figura ímpar. Nissei, tem um conhecimento global sobre o Japão que supera o dos próprios nativos. Foi programado para estarmos juntos lá por um período menor que o meu, para visitas e estudos sobre um método construtivo específico para túneis, o “shield”, popularmente conhecido como “tatuzão”. Já havia estado lá diversas vezes, fala e escreve correntemente o idioma, no qual até compõe poesias, e lá pronuncia palestras, recebe homenagens, e muito mais. Foi meu professor de história, cultura, usos e costumes, e alimentação com aulas práticas em restaurantes no bairro da Liberdade, onde se concentram as colônias japonesa, coreana, chinesa e afins.

-Graças às “aulas” do Yamashita, soube do uso intensivo de troca de cartões de visita. Ao conhecer alguém, não é usado o aperto de mãos, mas uma rápida e leve inclinação e a troca de cartões; é dado com a mão direita e recebido simultaneamente com a esquerda. Levei 500 cartões em português e inglês, mas foram insuficientes. Precisei imprimir mais por lá.

-Tadashi Nakagawa: metroviário, bom amigo, brilhante engenheiro na área eletro-eletrônica, fez estágio antes de mim pelo mesmo órgão do Governo Japonês, a JICA. Ilustrou-me com informações e detalhes fundamentais.

-Super Eva: secretária em nosso setor na Companhia, era famosa por sua eficiência, aliada a uma grandeza humana fascinante. Preparou-me um material para viagem fantástico, completíssimo, cobrindo todas as minhas necessidades e imprevistos.

Para cada país e cidade visitados, tinha todas as informações para comunicação via telefone e telex, todos os contatos bancários, todos os consulados e embaixadas brasileiros, e muito mais! A Eva foi a responsável pela tranquilidade e sucesso desta viagem; tudo foi perfeito.

Tudo preparado, no último fim de semana, antes de viajar, fomos a Rio Grande para nos despedirmos de meus pais e irmãos, e receber orientações sobre os parentes a serem visitados no Líbano, parte do roteiro de volta. Um dos pedidos, do meu pai causou forte emoção em todos. Ele havia saído do Líbano há mais de 60 anos, e não retornou nenhuma vez.  Então solicitou que trouxéssemos, da casa onde ele nasceu e morou, uma fruta que daria na época em que estaríamos lá, além de um pouco de terra e pedras do quintal para colocar em seu caixão quando viesse a falecer.

Com tudo pronto, fomos para o embarque no dia 23 de junho em Congonhas. A época não existia o Aeroporto de Guarulhos (apenas Cumbica, para operações militares). Uma viagem ao Japão, então, era tão rara que familiares e amigos, cerca de 30 pessoas, estavam no aeroporto para as despedidas. Ali começava uma experiência profissional e de vida inesquecíveis.

Que saudades!

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