06/07/2018

Memórias Gastronômicas - Parte I



Prezados...

É absolutamente inevitável!  Sendo eu uma composição étnico-cultural formada dos libaneses dos quais sou filho, e de gaúcho, do Rio Grande onde nasci e vivi até meus 15 anos, a participação da gastronomia em minha vida ocupa lugar importante.

Não como autor, mas como consumidor. Como autor, mal sei preparar alguns quitutes básicos (um bom contra filé a cavalo, salada de batata com salsichas e alguns sanduiches incrementados) remanescentes do período de estudante, solteiro, morando sozinho na Vila Mariana em São Paulo. Mais ou menos, sei assar um churrasco estilo gaúcho, carne e sal grosso, apenas o suficiente para sobreviver. Como consumidor, guardo na memória alguns momentos que quero compartilhar com vocês. Começo com uma pequena referência ao que foi dito acima: da influência de ser gaúcho-libanês na alimentação.

A culinária no Rio Grande do Sul recebeu múltiplas influências, começando pelo estilo de vida do campo e depois com os imigrantes trazendo seus pratos. Daí surgiu uma grande variedade, como, por exemplo: churrasco, galeto, arroz de carreteiro, charque, pratos alemães, portugueses, italianos, peixes e frutos do mar. E a vinicultura gaúcha, hoje aperfeiçoada com um  incremento na qualidade da produção.


Além da grande fartura, contribuiu para a fama da cozinha do Sul a excelente qualidade dos produtos obtidos com agricultura orgânica. Em Rio Grande, minha cidade natal, os produtores vendiam nas feiras livres, ou então era muito comum comprarmos diretamente em suas chácaras. Por exemplo, o sabor de um tomate gaúcho, de qualquer fruta, legume ou verdura, produzidos nestas condições, é imbatível.

A culinária libanesa é um acontecimento! É formada por uma mescla de fatores em que o fantástico sabor talvez seja o menos importante. Antes dele virão o significado quase religioso de uma comunhão de pessoas ao redor da mesa, somado ao enfoque de ser uma nobre arte.

Sentar à mesma mesa de refeições é para um libanês um atestado de ligação fraterna, e ele não compartilha da mesa com quem não tenha esta ligação. Na religião católica, nascida no Oriente Médio e que professo, o alimento sempre teve uma participação importante nas escrituras e faz até parte de orações (“o pão nosso de cada dia”). Mais exemplos disto são   o forte significado da Última Ceia junto aos fiéis, o primeiro milagre de Cristo (transformação de água em vinho), que foi no Líbano, e o  da multiplicação dos pães e peixes. 


A velha matriarca comandando a cozinha, colocando ali a sabedoria acumulada por muitos séculos, é a rainha da reunião.  A seguir indico alguns aspectos básicos da cultura libanesa, mas ressalvo que nem todos ainda são praticados, pois houve uma modernização e globalização em diversos hábitos e valores do comportamento libanês.

A imensa variedade de pratos e sabores, dispostos à mesa em pequenas travessas sobrepostas em duas a três unidades para conseguir espaço para tudo; a insistência de todo libanês para que o outro coma, e coma, e coma. A tragédia que representa para a cozinheira, sempre dizendo que “ninguém comeu nada” ou, “não gostaram da minha comida”, etc.., por mais que os comensais tenham ali ficado várias horas apreciando os maravilhosos sabores da que considero a melhor comida do mundo (perdoem-me franceses e chineses, que seguem numa guerra para decidir qual a melhor, também do mundo!).  Constitui uma grande descortesia recusar algum alimento.

É muito comum que qualquer participante, ao ver seu prato vazio, sirva alguns alimentos mesmo sem qualquer pedido ou sinal de sua parte.  Ao terminar, convém deixar sobrar um pouco no prato, caso contrário estará transmitindo a ideia de que a refeição servida teria sido insuficiente. Certa vez um libanês me disse que a refeição corriqueira é composta de 25 pratos, e o banquete de 75. Há alguns meses um amigo fez minha inscrição em um grupo de internet, “Libaneses do RS e Mercosul” e que já possui um número elevado de participantes.


Diariamente são postadas mais de 100 fotos e mensagens, sobre uma grande variedade de assuntos. Mas o tema predominante é COMIDA LIBANESA. Já foi criado um almoço semanal em um restaurante libanês em Porto Alegre.
Como resultado desta fusão em minhas origens, tenho lembrança de alguns momentos marcantes ou curiosos relacionados à gastronomia em minha vida, e que passo a expor, de forma aleatória e em absoluta desordem cronológica ou de critério de precedência.

-Luiz Fernando Veríssimo: além do gênio literário, é reconhecido como conhecedor e apreciador da boa gastronomia, e sobre o assunto lançou um livro de crônicas. Lendo-o, fiz coro com seu desejo de processar a Medicina, devido aos muitos anos de prazeres roubados, e eu faria parceria com ele neste processo, cujo motivo é: OVO FRITO.
Durante muitos anos foi execrado, acusado de provocar os maiores malefícios à saúde; então, a Medicina mudou de ideia e retirou o ovo frito do index dos proibidos. E eu, assim como o Veríssimo, que por anos e anos perdemos os prazeres de um ovo frito desmanchando sobre um fumegante arroz? Quem irá nos compensar por esta perda de prazer? Medicina, aguarde nossa aguerrida batalha judicial!


-Mezzee: até vir morar em São Paulo, em 1958, aos 15 anos, pouco frequentei restaurantes. Em Rio Grande comíamos muito pratos árabes, mas sempre em casa, casas de amigos, festas, ou no tradicional banquete organizado todos os anos em novembro pelo Félix Saad, o grande apresentador da “Hora Libanesa” na rádio Minuano (“um programa de coração a coração: do coração libanês ao coração brasileiro”), para as festas da Independência do Líbano.

Por isto ficou marcada minha primeira vez em um restaurante libanês. Férias de julho de 1957, passei o mês em São Paulo, e o Adib Salomão levou-me a conhecer o Almanara da rua Basílio da Gama,  um dos poucos (ou, talvez, o único) de culinária árabe fora da  região da 25 de março, pois ainda não havia se difundido o conhecimento e o gosto na população como é hoje, e que começou  poucos anos depois com a Casa Kibe e a Kibelândia, no centro (Avenidas São João e Ipiranga) .

Foi uma experiência deslumbrante! Servindo no sistema “refeição completa”, era um desfile riquíssimo de variedades culinárias, com apresentação de extremo bom gosto, que somada à excelente qualidade e à beleza da Arquitetura e da decoração do local, típicas da época, tornaram tudo inesquecível.  Veja que lá se vão mais de 60 anos. Hoje o Almanara é uma rede de vários restaurantes, mas o da Basílio da Gama é o único com o sistema rodízio no serviço, e o local preserva toda a beleza original.

-Omelete gaúcho: em certa época, décadas 1990 e 2000, eu viajava mensalmente a Rio Grande, para administrar a loja que ainda tínhamos e face às condições de saúde e depois do falecimento de meus irmãos que dirigiam os negócios. Cheguei a ser “figurinha” conhecida nas empresas de aviação, devido ao voo, São Paulo – Porto Alegre. E, para obter boas tarifas e otimizar o aproveitamento do tempo, usei muitos voos da madrugada, pois ainda tinha o trecho rodoviário, 320 km, até Rio Grande, para o qual eu mantinha uma Santana Quantum numa garagem próxima ao Aeroporto em Porto Alegre. Este carro servia também para meus deslocamentos em Rio Grande, pois eu ficava em nossa casa na praia do Cassino, e os negócios eram na cidade, a 25 km, além de ter sido útil para parentes e amigos que viajavam para o sul e o usaram muito.


Em uma viagem fui tomar o café da manhã no Cuca´s, a menos de uma hora de Porto Alegre. Marco famoso para todos que fazem este percurso, o Cuca´s destaca-se por somar simplicidade e baixo preço a uma boa qualidade de alimentação e, um ambiente e atendimento   agradável e receptivo. Foi lá que pedi uma omelete “só de queijo”. Veio uma fatia de queijo quente, derretido, no meio do prato. Só! O Cuca´s inventou a omelete sem ovo! Tenho curiosidade em saber o que diriam a respeito o Anquier e o Jackin.

E em São Paulo? Calma! Eu chego lá.

Essas e demais lembranças ainda serão compartilhadas na próxima postagem. São pratos e lugares inesquecíveis que os mantenho muito vivos nas deliciosas memórias gastronômicas.

Continuação na Parte II. Até mais...

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