Prezados...
É absolutamente inevitável!
Sendo eu uma composição étnico-cultural formada dos libaneses dos quais
sou filho, e de gaúcho, do Rio Grande onde nasci e vivi até meus 15 anos, a
participação da gastronomia em minha vida ocupa lugar importante.
Não como autor, mas como consumidor. Como autor, mal sei preparar
alguns quitutes básicos (um bom contra filé a cavalo, salada de batata com
salsichas e alguns sanduiches incrementados) remanescentes do período de
estudante, solteiro, morando sozinho na Vila Mariana em São Paulo. Mais ou
menos, sei assar um churrasco estilo gaúcho, carne e sal grosso, apenas o
suficiente para sobreviver. Como consumidor, guardo na memória alguns momentos
que quero compartilhar com vocês. Começo com uma pequena referência ao que foi
dito acima: da influência de ser gaúcho-libanês na alimentação.
A culinária no Rio Grande do Sul recebeu múltiplas influências,
começando pelo estilo de vida do campo e depois com os imigrantes trazendo seus
pratos. Daí surgiu uma grande variedade, como, por exemplo: churrasco, galeto,
arroz de carreteiro, charque, pratos alemães, portugueses, italianos, peixes e
frutos do mar. E a vinicultura gaúcha, hoje aperfeiçoada com um incremento na qualidade da produção.
Além da grande fartura, contribuiu para a fama da cozinha do Sul a
excelente qualidade dos produtos obtidos com agricultura orgânica. Em Rio
Grande, minha cidade natal, os produtores vendiam nas feiras livres, ou então
era muito comum comprarmos diretamente em suas chácaras. Por exemplo, o sabor
de um tomate gaúcho, de qualquer fruta, legume ou verdura, produzidos nestas
condições, é imbatível.
A culinária libanesa é um acontecimento! É formada por uma mescla de
fatores em que o fantástico sabor talvez seja o menos importante. Antes dele
virão o significado quase religioso de uma comunhão de pessoas ao redor da
mesa, somado ao enfoque de ser uma nobre arte.
Sentar à mesma mesa de refeições é para um libanês um atestado de
ligação fraterna, e ele não compartilha da mesa com quem não tenha esta
ligação. Na religião católica, nascida no Oriente Médio e que professo, o alimento
sempre teve uma participação importante nas escrituras e faz até parte de orações
(“o pão nosso de cada dia”). Mais exemplos disto são o forte significado da Última Ceia junto aos
fiéis, o primeiro milagre de Cristo (transformação de água em vinho), que foi
no Líbano, e o da multiplicação dos pães
e peixes.
A velha matriarca comandando a cozinha, colocando ali a sabedoria
acumulada por muitos séculos, é a rainha da reunião. A seguir indico alguns aspectos básicos da
cultura libanesa, mas ressalvo que nem todos ainda são praticados, pois houve
uma modernização e globalização em diversos hábitos e valores do comportamento
libanês.
A imensa variedade de pratos e sabores, dispostos à mesa em pequenas
travessas sobrepostas em duas a três unidades para conseguir espaço para tudo;
a insistência de todo libanês para que o outro coma, e coma, e coma. A tragédia
que representa para a cozinheira, sempre dizendo que “ninguém comeu nada” ou, “não
gostaram da minha comida”, etc.., por mais que os comensais tenham ali ficado
várias horas apreciando os maravilhosos sabores da que considero a melhor
comida do mundo (perdoem-me franceses e chineses, que seguem numa guerra para
decidir qual a melhor, também do mundo!).
Constitui uma grande descortesia recusar algum alimento.
É muito comum que qualquer participante, ao ver seu prato vazio, sirva
alguns alimentos mesmo sem qualquer pedido ou sinal de sua parte. Ao terminar, convém deixar sobrar um pouco no
prato, caso contrário estará transmitindo a ideia de que a refeição servida
teria sido insuficiente. Certa vez um libanês me disse que a refeição
corriqueira é composta de 25 pratos, e o banquete de 75. Há alguns meses um
amigo fez minha inscrição em um grupo de internet, “Libaneses do RS e Mercosul”
e que já possui um número elevado de participantes.
Diariamente são postadas mais de 100 fotos e mensagens, sobre uma
grande variedade de assuntos. Mas o tema predominante é COMIDA LIBANESA. Já foi
criado um almoço semanal em um restaurante libanês em Porto Alegre.
Como resultado desta fusão em minhas origens, tenho lembrança de alguns
momentos marcantes ou curiosos relacionados à gastronomia em minha vida, e que
passo a expor, de forma aleatória e em absoluta desordem cronológica ou de
critério de precedência.
-Luiz Fernando Veríssimo: além do gênio literário, é reconhecido como
conhecedor e apreciador da boa gastronomia, e sobre o assunto lançou um livro
de crônicas. Lendo-o, fiz coro com seu desejo de processar a Medicina, devido
aos muitos anos de prazeres roubados, e eu faria parceria com ele neste
processo, cujo motivo é: OVO FRITO.
Durante muitos anos foi execrado, acusado de provocar os maiores malefícios
à saúde; então, a Medicina mudou de ideia e retirou o ovo frito do index dos
proibidos. E eu, assim como o Veríssimo, que por anos e anos perdemos os
prazeres de um ovo frito desmanchando sobre um fumegante arroz? Quem irá nos
compensar por esta perda de prazer? Medicina, aguarde nossa aguerrida batalha
judicial!
-Mezzee: até vir morar em São Paulo, em 1958, aos 15 anos, pouco frequentei
restaurantes. Em Rio Grande comíamos muito pratos árabes, mas sempre em casa,
casas de amigos, festas, ou no tradicional banquete organizado todos os anos em
novembro pelo Félix Saad, o grande apresentador da “Hora Libanesa” na rádio
Minuano (“um programa de coração a coração: do coração libanês ao coração brasileiro”),
para as festas da Independência do Líbano.
Por isto ficou marcada minha primeira vez em um restaurante libanês.
Férias de julho de 1957, passei o mês em São Paulo, e o Adib Salomão levou-me a
conhecer o Almanara da rua Basílio da Gama,
um dos poucos (ou, talvez, o único) de culinária árabe fora da região da 25 de março, pois ainda não havia
se difundido o conhecimento e o gosto na população como é hoje, e que começou poucos anos depois com a Casa Kibe e a
Kibelândia, no centro (Avenidas São João e Ipiranga) .
Foi uma experiência deslumbrante! Servindo no sistema “refeição
completa”, era um desfile riquíssimo de variedades culinárias, com apresentação
de extremo bom gosto, que somada à excelente qualidade e à beleza da Arquitetura
e da decoração do local, típicas da época, tornaram tudo inesquecível. Veja que lá se vão mais de 60 anos. Hoje o
Almanara é uma rede de vários restaurantes, mas o da Basílio da Gama é o único
com o sistema rodízio no serviço, e o local preserva toda a beleza original.
-Omelete gaúcho: em certa época, décadas 1990 e 2000, eu viajava
mensalmente a Rio Grande, para administrar a loja que ainda tínhamos e face às
condições de saúde e depois do falecimento de meus irmãos que dirigiam os
negócios. Cheguei a ser “figurinha” conhecida nas empresas de aviação, devido
ao voo, São Paulo – Porto Alegre. E, para obter boas tarifas e otimizar o
aproveitamento do tempo, usei muitos voos da madrugada, pois ainda tinha o
trecho rodoviário, 320 km, até Rio Grande, para o qual eu mantinha uma Santana
Quantum numa garagem próxima ao Aeroporto em Porto Alegre. Este carro servia
também para meus deslocamentos em Rio Grande, pois eu ficava em nossa casa na
praia do Cassino, e os negócios eram na cidade, a 25 km, além de ter sido útil
para parentes e amigos que viajavam para o sul e o usaram muito.
Em uma viagem fui tomar o café da
manhã no Cuca´s, a menos de uma hora de Porto Alegre. Marco famoso para todos
que fazem este percurso, o Cuca´s destaca-se por somar simplicidade e baixo
preço a uma boa qualidade de alimentação e, um ambiente e atendimento agradável e receptivo. Foi lá que pedi uma
omelete “só de queijo”. Veio uma fatia de queijo quente, derretido, no meio do
prato. Só! O Cuca´s inventou a omelete sem ovo! Tenho curiosidade em saber o
que diriam a respeito o Anquier e o Jackin.
E em São Paulo? Calma! Eu chego
lá.
Essas e demais lembranças ainda
serão compartilhadas na próxima postagem. São pratos e lugares inesquecíveis
que os mantenho muito vivos nas deliciosas memórias gastronômicas.
Continuação na Parte II. Até mais...
Omelete sem ovo é demais rsrs
ResponderExcluirÓtimo texto!