28/08/2018

CÂMARA DE COMÉRCIO HOMENAGEIA – Parte II



Prezados,

Continuação da postagem anterior. (Para não cansá-los, dividi a postagem em pequenas partes)

NOTAS PRELIMINAES

- Palestra de Eng. Jasel Neme em 24 de setembro de 1999, no auditório da CÂMARA DE COMÉRCIO DA CIDADE DO RIO GRANDE, como parte da programação da homenagem com o título de Rio-grandino ilustre.
- A mesa foi composta pelo Presidente da Câmara de Comercio, Eng. CLOVIS KLINGER e pelos homenageados, Dra. CLÁUDIA MARIA OLIVEIRA SIMÕES, Min. ERNESTO OTTO RUBARTH e Eng. JASEL NEME.
- Os três homenageados apresentaram palestras narrando suas respectivas experiências pessoais e profissionais, sendo a minha, a terceira.
-O texto a seguir foi reconstituído de gravação parcial, de roteiro-resumo da palestra e da memória. Por conveniência de tempo e horário, foram excluídas algumas partes que estavam previstas; estas exclusões estão indicadas no decorrer do texto abaixo e reproduzidas de forma esquemática no fim.
- Na apresentação feita pelo Presidente, Eng. Clóvis Klinger, foi dito (mais ou menos) que “.... O Jasel está ansioso para falar”, o que serviu de “gancho” para o início da seguinte

PALESTRA:

É! ... Eu disse ao Presidente, alguns minutos atrás, do risco que ele estava correndo ao me ceder a palavra; eu não chego a ser um Fidel Castro que discursa 8, 10 horas, mas me dar a palavra é um risco muito grande. Mas eu prometo me policiar e já encarreguei aí uma certa pessoa para me policiar também.
Caro Presidente, Clóvis Klinger; cara Claudia; caro Ernesto; Senhoras e Senhores...

Uma vez eu recebi a visita de alguns empresários japoneses que pretendiam se introduzir no Brasil; na época eu estava trabalhando no METRÔ de São Paulo e eles diziam da excelência de seus serviços, dos equipamentos, das pesquisas, do excelente atendimento ao cliente e que faziam isso, que davam o melhor de si para compensar o fato de ser uma empresa nova, empresa que não tinha tradição, como tantas outras. Eu perguntei: qual a idade da empresa? Tem 90 anos... Só!

Então, entre tantas outras coisas que sei do Japão, das diferenças do Brasil, essa foi uma das que eu aprendi que os padrões lá são diferentes dos nossos. Que para nós, às vezes, 15 anos já é uma tradição; 20, 30, 40, nem se fale. 

Então, eu quero que as minhas primeiras palavras sejam de saudação a esta Casa que, com 155 anos, representa toda uma história e motivo de justo orgulho para todos nós rio-grandinos. Inicialmente minha saudação à Câmara do Comércio.

E quando esta Casa resolve homenagear este filho, com todo o peso desta história e desta tradição, este humilde filho de Rio Grande sente-se muito emocionado. Muito emocionado e extremamente feliz.

Eu agradeço aos Diretores e Conselheiros por esta alegria, por esta grande honra que recebi. Foi uma generosidade e é a mesma generosidade do povo da minha terra e é a mesma generosidade com que foram recebidos os meus antepassados aqui na década de 10, década de 20. A mesma generosidade com que meus avós e meus pais se integraram na sociedade rio-grandina e essa generosidade me emociona muito.

Meus antepassados se integraram muito facilmente em Rio Grande e deixaram marcas nesta cidade. O meu Avô tornou-se cedo um, entre aspas, um “cônsul” dos libaneses em Rio Grande; era ele quem recebia todos os outros imigrantes e os encaminhava. Meu pai abriu a primeira loja em 1927, meu avô tinha a “Casa Numa” ali na esquina da  “24 com a Vice Almirante Abreu”.  

Naquele monumento que tem ali na Praça Montevidéu, que é uma homenagem da colônia libanesa, o discurso na inauguração foi feito pelo meu tio, o tio Fuad; o senador Romeu Tuma, que todos conhecem, mas poucos sabem, o pai dele imigrou da Síria, não era Líbano, para Rio Grande; chegou aqui e o meu avô foi quem o recebeu e o próprio senador conta essa história, às vezes; o pai do senador mudou-se para Pelotas, foi jogador de futebol, depois mudou-se para o interior de São Paulo, onde nasceram os filhos.
          
(Exclusão 1)
Minha infância aqui foi muito bonita e o Ernesto roubou um pouco do que eu iria dizer então, o que ele disse, vale para mim também: que é uma cidade gostosa, agradável, bonita, que deixa muitas saudades. Os amigos ainda lembram os sanduíches que minha mãe fazia e um deles era o “bauru”; ninguém conhecia bauru em Rio Grande e como nós tínhamos um contato muito grande com São Paulo, nós “importamos” o bauru.

Alguns dos presentes lembram isso, certo? Outra “importação” nossa foi o Bom Bril, era uma novidade que conhecemos em São Paulo; então o Camil, meu irmão, que sempre foi muito criativo em matéria de negócios, né? -então o Camil  “importou” um caminhão de Bom Bril, de São Paulo para cá, encheu a vitrine da loja, da Modesta, na época, encheu a vitrine de Bom Bril e fez um concurso: quem adivinhava quantos: quantos Bom Bril ( existe plural de Bom Bril ? Quantos Bom Bris, fica feio, né?), então quantos Bom Bril existem lá, fez um concurso...

A infância da matinê do Carlos Gomes, a infância do sorvete de creme do português, a infância do Cassino, da SAC, ainda atrás do hotel Atlântico, o barracão. Tem uma historinha que eu garimpei na memória e que eu quis trazer para cá, - tem gente que está aqui presente que vai lembrar – a história do osso na aula de latim. O professor de latim era o irmão Hermes, que era também diretor do São Francisco e alguém, algum colega achou um osso no pátio, um osso grande, devia ter uns 20, 30 centímetros, e levou para a sala e foi passando de mão em mão até que o diretor descobriu e mandou fazer o caminho inverso, para descobrir quem foi o autor da brincadeira. Eu me lembro até que um dos colegas, o Moacir, muito criativo, brincalhão, escreveu uma poesia de umas 15 estrofes. Eu me lembro de duas:

“Um osso no pátio achado
  Na aula veio parar
  O diretor quis fazer
  Dele seu rico manjar

  O diretor ao ver na aula
  De mão em mão o pobre osso
  Quis leva-lo pra uma sopa
  Mas não lhe passou no pescoço”

Bom, o fato é que por que eu quis trazer essa historinha? Porque eu tenho marcada como um dos momentos de solidariedade que é uma das características do povo da minha cidade. Quando o osso chegou no colega que tinha sido o autor, o iniciador da brincadeira, o colega ao lado esticou a mão para pegar o osso e assumiu; aí, o outro do lado assumiu e pegou também; e o osso ficou girando em falso e o diretor não descobriu quem foi o autor e o castigo veio para todos igualmente. Então, essa eu acho uma história bonita. 

Por isso, eu quis trazê-la.

Espero vocês no próximo post.

21/08/2018

Câmara do Comércio Homenageia

Prezados, 


Fundada em 25 de setembro de 1844, a Câmara de Comércio da Cidade do Rio Grande é a mais antiga do Rio Grande do Sul e a quarta do Brasil. É uma entidade formada pela classe empresarial e possui desde seu início uma história de lutas e realizações em prol da cidade. Para mim foi uma grande honra e emoção, que recebi com muita humildade, ser por ela homenageado com o título de riograndino ilustre.


Nascido lá, em 2 de dezembro de 1942, filho mais novo e “temporão” de quatro (meu irmão mais “próximo” é 9 anos e meio mais idoso) de imigrantes pequenos comerciantes libaneses, saí de lá aos 15 anos para estudar o Colegial e Faculdade em São Paulo.

Em 1999, eu com 56 anos, amigos levaram à Diretoria meu “curriculum”, e foi entendido que eu estaria habilitado a ser homenageado. Ocorreu, então, uma grande festa pelos 155 anos de fundação e, entre as comemorações, foram indicados três nomes a receber o título de RIOGRANDINO ILUSTRE, concedido a pessoas nascidas em Rio Grande e que desenvolveram trabalhos dignos de nota fora da cidade. Também incluídos mais dois nomes a receber o TROFÉU CÂMARA DE COMÉRCIO,  concedido a quem, independentemente do local de nascimento, fez algo benéfico à cidade de Rio Grande.

Para o primeiro caso, além de mim receberam o mesmo título a Dra. Cláudia Simões, pesquisadora na Universidade de Santa Catarina e o Ministro Ernesto Otto Rubarth, diplomata que atua nas embaixadas e consulados brasileiros em diversas cidades do mundo. O troféu foi destinado a um riograndino, Germano Toralles Leite, empresário e fundador de dois destacados jornais na cidade e ao empresário inglês William Salomon, proprietário da Wilson Sons, uma das empresas sócias do TECON – Terminal de Containers, importantíssimo segmento operacional do Porto de Rio Grande.
As comemorações do aniversário da Câmara de Comércio são precedidas todos os anos de grande divulgação pela imprensa, e tem para a cidade importância compatível com a história e o prestígio da entidade. Para mim, além do significado da homenagem, foram dias de muita emoção por rever e reunir pessoas amigas de muitas décadas, e com as quais não tinha contato por morar fora da cidade. O evento constou de dois programas, ambos no mesmo dia, 24 de setembro de 1999, uma sexta-feira.

À tarde, no Auditório da entidade os três riograndinos ilustres apresentaram palestras narrando suas histórias de vida, sendo a minha a última das apresentações. Comparecimento de grande número de pessoas, muitas das quais eram antiquíssimas amizades de meus pais e de meus irmãos, o que resultou em momentos de extrema emoção quando pronunciei minha palestra que foi gravada por minha filha Nani, o que permitiu sua reconstituição em texto e que apresento adiante nesta crônica.

À noite, no Salão Nobre, aconteceu um grande banquete e a entrega de troféus aos homenageados. Presentes toda a sociedade e autoridades da cidade, incluídos o Prefeito Wilson Matos Branco, secretários, vereadores, deputados, Comandantes Militares das três Forças Armadas, o Bispo, a imprensa, entre outros.

Antes do início os organizadores solicitaram que os homenageados indicassem um dos nomes para dirigir uma saudação aos presentes; por quase unanimidade (menos o voto da eleita) foi indicada a Cláudia Simões, que pediu dispensa e solicitou que eu desempenhasse a missão. Procurei faze-lo da melhor forma possível, e a opinião geral posterior confirmou isto, inclusive as publicações em toda a imprensa. Recebi muitos elogios.

Além da programação oficial, descrita acima, organizamos para o dia seguinte uma reunião no Hotel Atlântico, que constou de um jantar dançante para cerca de 100 convidados, e principalmente de muita alegria e confraternização. Foram momentos mágicos e inesquecíveis.
De tudo o que foi dito ficaram muitas alegrias e momentos de muita emoção. No entanto, ficou uma frustração: a ausência dos parentes e amigos de São Paulo. Além de nós, Olga, Ci e Nani , veio apenas um amigo, Mário Bonaldi (o Gu).

A seguir apresento a reconstituição da PALESTRA apresentada na reunião da tarde.

Até mais... na próxima postagem.

31/07/2018

Memórias gastronômicas - Parte II


Prezados,

Tive que dividir a postagem em duas partes pois, as memórias gastronômicas para mim e  qualquer pessoa, têm pelo menos dupla importância: sensitiva e cultural.
Sensitiva, por permitir sentir a vida por todos os sentidos do corpo humano e, cultural por proporcionar a compreensão da construção histórica de hábitos e atitudes influenciados pela influência de grupos de pessoas das diversas regiões do pais e do mundo.
Continuando com a parte II da postagem, não poderia me esquecer dos locais e dos sabores que descrevo abaixo.

-Salada Paulista: conheci em 1957, pouco antes de mudar-me para São Paulo. Foi um marco inesquecível da cidade, localizado no centro, Av. Ipiranga entre São João e 24 de maio, quando o centro de São Paulo era realmente o centro: toda a atividade era lá. Para remeter uma carta ou um telegrama, eu tomava o bonde ou o ônibus para ir até o correio central, na São João com Anhangabaú. 

Ao lado do restaurante, a banca de jornais da Ipiranga com São João era a única em São Paulo que vendia jornal do Rio Grande do Sul, então virou um ponto de encontro de gaúchos para, entre um e outro “baaah, tchê”, matar saudades da terra. Na “Salada” não tinha mesas, era um longo balcão com banquetas, servia lanches, sanduiches e pratos rápidos; tudo muito fresco, saboroso e barato. O prato que simbolizava a casa era a salada de batatas com salsicha, e um dos mais pedidos era o sanduiche de bife a milanesa. Lamento que tenha fechado, devido à dinâmica da cidade com seu crescimento, modernização e, acredito americanismos que tiraram o espaço do “cachorro quente” para substituir pelo “hot dog”.

-Cachorro quente: a citação acima fez aflorar em minha memória o cardápio em nossa casa, infância em Rio Grande, nos sábados à noite. Por muitos e muitos anos minha mãe preparava neste dia o cachorro quente, em sua versão absolutamente original: pão francês (“cacetinho” no idioma gauchês), salsichas, molho de tomate, cebola e salsa, mostarda e pimenta. Uma delícia, até hoje desprezo qualquer “cachorrão” com um monte de componentes se houver esta lembrança de mamãe em troca. Um caso “puxa” outro; em 1973, pouco mais de 2 anos de casados, Olga e eu fomos de carro a Buenos Aires, onde tinha sido parte de nossa lua de mel. Fizemos excelentes compras de jogos de louças, copos, taças, peças de cristal e talheres; o carro, Corcel, veio lotado. Saímos cedo de Buenos Aires, atravessamos a balsa em Colônia, e tivemos um atraso em Montevidéu para esperar o comércio abrir (fecha para almoço) para trocar uma mercadoria comprada na ida; seguimos viagem em direção a Chuy, sem almoçar. Fomos parados por uma fiscalização fazendária, devido à quantidade de mercadorias; houve ameaça de apreensão. Conseguimos convencer o agente que não tínhamos nenhuma intenção de vender, e ele liberou, mas nos deu um prazo, o estritamente necessário para chegar a Chuy onde deveríamos apresentar o passe que ele nos forneceu e sair do país. Resultado: entramos no Brasil – Chui – às 19hs., tendo como alimentação única no dia apenas o café da manhã em Buenos Aires. Nossa salvação foi um trailer vendendo “cachorrão”, novidade à época e que conhecemos lá. Claro que foi o lanche mais saboroso de nossas vidas! Inesquecível!

-Dinho´s Place: tradicional churrascaria, aberta na década 1950 por um “patrício” – Fuad Zogaib – e daí saiu o nome da casa, derivado do diminutivo afetivo do nome – Fuadinho. Até hoje, idade avançada, ele comparece na casa, que se firmou na cidade pelo excelente padrão – instalações, atendimento, qualidade dos produtos; frequento-a devido a   todo este conjunto.
Lá tenho preferência pelos churrascos, pela ótima feijoada às quartas e sábados, e pelo buffet de peixes e frutos do mar às sextas; mas de tudo, em especial acho imbatível o frango desossado grelhado. Sempre senti muita falta, aqui em São Paulo, do galeto do Rio Grande do Sul; nunca achei nenhum que pudesse lembrar o que comemos lá, em qualquer lugar, mas principalmente na região da Serra Gaúcha – Bento Gonçalves, Caxias, etc... E o Dinho´s consegue fazer-me sentir o sabor do “meu” Rio Grande. E ele está marcado também pelos nossos jantares de turma da faculdade, a gloriosa turma da Poli 65, que se reúne anualmente graças ao fenomenal empenho, dedicação e organização do Bernasconi (além dos puxões de orelha às vezes  nos “sumidos” que ficam tempo sem aparecer);  por vários anos tivemos lá uma sala reservada para este evento, no qual os circunspectos engenheiros, que alguns minutos antes estavam em seus escritórios ou reuniões tomando decisões importantíssimas, transformam-se em garotos estudantes. Faz-me lembrar também uma figura especial, muito querida, o Sr. Jamil Chammas. Patrício dos mais tradicionais, pai da Beth e sogro do Simão (o Zé Carlos), lá fazia seus almoços de domingo reunindo a família. Ficou famoso o “ritual” da escolha do prato: cada vez folhava e consultava detidamente o vasto cardápio, com grandes dúvidas sobre o que escolher. Vinha então a decisão: um filé com fritas; SEMPRE!!! Uma explicação sobre o porque de citar acima nome do Zé Carlos: tenho vários grandes amigos com o mesmo nome – Simão, então achei que deveria esclarecer qual era; tenho até um grande amigo, em Rio Grande, que é   plural: meu prezado SIMÕES.

-Memórias: existem diversos pratos  dos quais eu lembro onde e em que circunstâncias   provei pela primeira vez, e vou relatar quatro casos. Não tenho certeza, creio que foi com 8 a 10 anos de idade; em Rio Grande tínhamos o hábito de abrir a refeição com um prato de sopa, então nesta época surgiu   para provarmos um vidro de molho denso, cor vermelho forte, um pouco adocicado, para misturar na sopa, e com um nome esquisito: ketchup, hoje difundido para temperar sanduiches. Conheci o   creme de milho no fim dos anos 50; o Nicolau Safatle, grande amigo, médico, casou-se em Botucatu com a Magali, de uma família muito conceituada, filha do Dr. Brasil Blasi. Fomos em um grupo grande ao casamento. Pouco tempo depois, o casal morando na Av. Angélica, em São Paulo, ofereceu-nos um almoço. Lá, entre outros quitutes, conheci o creme de milho, que além de não conhecer também nunca ouvira falar; apreciei muito o sabor. Depois deste almoço comi muitas vezes. A Olga gosta muito, seguidamente pedimos comida do Juca Alemão em boa parte devido ao creme de milho que eles preparam. Atualmente já não aprecio tanto porque meu gosto   por alimentos adocicados diminuiu, acho-os enjoativos. Mais uma experiência com novidades culinárias eu já citei em outra crônica; foram as aulas do Jorge Yamashita sobre o Japão. No bairro da Liberdade, centro das colônias japonesa, chinesa e coreana, comi pela primeira vez comida japonesa, em 1975, como treino para viajar para lá. Pode parecer estranho, devido à grande penetração hoje no gosto da população em todo o Brasil, mas naquela época ninguém que não fosse da colônia conhecia.  Outro caso, mais recente, por volta de 1992/1993, eu era Diretor de uma estatal com escritório no Brooklin, próximo do Clube Hípica. Um dos diretores, o Parreirinha, era sócio do Clube e seguidamente íamos almoçar lá, todos os diretores. Nos restaurantes não era conhecido o creme de papaia, mas no do clube já era servido; gostei muito!  E quando passou a ser servido nos restaurantes, também caiu no gosto da Olga, que pedia seguidamente.

-Bauru: já é muito conhecida de a história da invenção do bauru e a razão do nome. Não é preciso repeti-las aqui. Meu irmão Camil, que como todos nós da família era um grande apreciador de bons sanduiches, conheceu-o aqui onde ele “nasceu”, São Paulo, e levou a novidade para Rio Grande. Minha mãe adotou-o e incluiu na rotina dos lanches de casa; logo fez sucesso entre os amigos, que vinham para saborear a novidade “importada” de São Paulo. Era a década de 1950. Após algum tempo as lanchonetes começaram a preparar, e teve grande expansão na cidade. Algumas tornaram-se famosas, e passou a ser o lanche preferido da turma da madrugada e do fim de noite. O “bauru do abrigo” – abrigo era o nome de uma estação de bondes em Rio Grande – passou a ser programa obrigatório nas madrugadas. Surgiu, então, um novo capítulo desta história: um dos hábitos do sulista é o de aprimorar seus quitutes mais apreciados, como fez por exemplo com o cachorro quente – criou o “cachorrão”, praticamente uma refeição, antes que São Paulo o adotasse. 

E fez o mesmo com o bauru: criou o “bauru no prato”. Uma receita riquíssima que consegue alimentar várias pessoas. O mais famoso era feito em Caxias do Sul. Uma vez, 1965, vindo de São Paulo de carro, Farid, Zé Roberto “Abacate” e eu, em um fusca recém comprado pelo Farid, programamos a viagem para dormir em Caxias, com a intenção (e   o estômago) mirando o “bauru no prato”. Não lembro bem o nome do local, muito famoso à época, talvez “Recreio dos Estudantes” ou “Recreio da Juventude”? Atualmente constitui uma variante da receita original; o velho bauru tradicional (rosbife, pepino, tomate, orégano, pão, manteiga e queijos) foi incrementado   e é conhecido como “bauru gaúcho” (opções de bife, linguiça, frango ou coração; presunto, queijos, tomate, cebola, alho, ketchup, orégano, servido no prato).

-A bordo: existem dois locais onde, quando se fala em comer, surge de imediato uma expressão de desprezo, comida pouca e ruim: hospital e avião. Avião, hoje, nem isso, é sinônimo de quase “passar fome”. Mas houve época em que esta viagem era um acontecimento, coberto de charme e elegância; e a nossa Varig – (Viação Aérea Riograndense, maldosamente apelidada de “Vários Alemães Reunidos Iludindo Gaúchos”) contribuiu muito para isto. Seu padrão de serviços estava entre os melhores do mundo. 


Chegava ao requinte de buscar cada passageiro em casa para levar ao aeroporto, de limousine; mas eram menos de 30 passageiros, a capacidade de um DC-3. E as refeições de bordo eram banquetes, mesmo! Em qualidade, quantidade, variedade e atendimento. Certa vez minha filha Cibele, criança, comeu um quindim a bordo, e passou VÁRIOS ANOS nos pedindo para voltar àquele avião para comer O quindim. Seria o doce mais caro do mundo! Mas a Varig foi responsável também, usando sua grande força política, por atrasar em muitos anos o ingresso  da aviação brasileira no “lowcost” e nos voos fretados (charter), que a Monark Turismo popularizou alguns anos depois.

Sendo extremamente elitista em seus conceitos, defendia as tarifas elevadas como eram; foi, na aviação, o que é o Laboratório de Análises Clínicas Fleury em São Paulo na medicina, de alta qualidade, caro e elitista. Aliás, com os preços e demais condição dos bilhetes aéreos praticados hoje seria absolutamente impensável manter um padrão de qualidade como aquele. No entanto, superando Varig e qualquer outra empresa em que voei, o maior banquete a bordo foi em um voo Avianca para os Estados Unidos via Colômbia onde fomos visitar parentes. A qualidade da empresa deixou muito a desejar, mas o almoço... Nunca imaginei algo tão fantástico a bordo de um avião. O  menu era criação do maior nome mundial da gastronomia à época, Paul Bocuse. Banquete de verdade!

-Churrasco: esta é uma lembrança que, acredito, não seja apenas minha, mas coletiva. Um bom churrasco está no gosto de quase toda a humanidade. E, óbvio, tratando deste tema é impossível esquecer nossos “hermanos” uruguaios e argentinos e, no Brasil, o Rio Grande do Sul. A excelência vem de uma composição de fatores, entre os quais estão as raças nobres de gado que se desenvolveram na região; a topografia com grandes campos e sem aclives pronunciados, que permitiu criação adequada; o preparo, que soma ritual, tradição e experiência. O caráter festivo e de comunhão entre as pessoas em qualquer “churrascada”. E esta qualidade é encontrada sempre, nas reuniões entre familiares e amigos, nos restaurantes, todos, desde o sofisticado até o humilde “boteco”.

-Darci: São Paulo é um dos maiores centros gastronômicos do mundo; é muito usada a expressão “restaurante é a praia do paulistano”. Um estudo da ONU feito há alguns anos colocou-a entre as quatro melhores, junto com Paris, Nova Iorque e Tókyo. No item “churrasco” tem casas excelentes, e quero registrar uma que considero marcante: a “Costela de Ouro”, aberta na década 1960 no Planalto Paulista (está lá até hoje) pelo Darci. Gaúcho de Pelotas, ex  funcionário da Varig, excelente assador, era requisitado pelo poderoso Rubem Berta para preparar quando tinha vontade ou recebia alguma visita importante (e tinha muitas). Ao aposentar-se, abriu a casa num andar superior  na Av. Piassanguaba (no térreo tinha uma padaria) e de imediato “bombou” no gosto paulistano; estou entre os primeiros clientes. A casa sobressai tanto pela qualidade do churrasco como pela autenticidade com relação ao afamado churrasco gaúcho. 

-O trivial: não poderia ficar fora a marca daquelas refeições triviais, extremamente saborosas. A cozinha brasileira é rica em sabores, e além dos milhões de   donas de casa que preparam as refeições para suas famílias temos também um tipo marcante: a comida de pensão. Quase todos os que saíram de casa para estudar ou trabalhar em outra cidade passaram por esta experiência. O trivial paulista, por exemplo, nos oferece um desfile de sabores que incluem, entre outros, saladas diversas (principalmente verde e maionese), macarrão, bife, frango, bisteca suína, ovo frito, arroz, feijão, legumes diversos cozidos... Eu, mesmo casado, fui várias vezes com a Olga e também com nossas filhas almoçar em alguma destas pensões. Nas nossas frequentes idas a Águas de Lindóia ou Serra Negra seguidamente fomos  almoçar no Sagrado Coração, ou em idas a Santos almoçar na Pensão Paulista (hoje Hotel). Citei apenas o trivial paulista, no Brasil existem muitos outros como o baiano e o mineiro. Devo citar também a nossa feijoada, para mim um dos pratos mais saborosos do mundo! Não importa a polêmica quanto à sua origem – escravos, cozido português – qualquer feijoada é imbatível em sabor.

-Maria Fulô: mais um dos muitos lugares em São Paulo onde fui levado a conhecer pelo Adib Salomão; creio que devo falar um pouco dele. De Rio Grande, sétimo e último filho de João Salomão, amigo de meu pai desde a juventude no Líbano; idade 9 anos além da minha; nossas famílias tiveram sempre uma convivência muito grande; formou-se em Direito em Porto Alegre, ainda jovem foi um dos fundadores de Faculdades em Rio Grande, ocupou cargos no governo estadual, onde chegou a Secretário da Educação; começando a namorar a Juçara Mansur (não é erro de grafia; é com “ç” mesmo), deslocou seu foco para São Paulo; com a namorada, depois noiva e esposa, o casal praticamente “adotou-me” para a vida mundana numa fase em que eu não tinha nenhuma condição financeira nem conhecimentos para tal. Voltemos ao Maria Fulô! Restaurante aberto em São Paulo, no Alto da Boa Vista, zona sul e região residencial nobre, por uma conterrânea, da cidade de Rio Grande, Vanda, grande banqueteira. Dedicou-se à cozinha baiana, e o restaurante era o que poderia ser classificado como PERFEITO. Instalações extremamente luxuosas e de bom gosto, excelente serviço   em atenção e eficiência, servia refeição completa composta por um desfile dos principais pratos da culinária baiana com apresentação e preparo impecáveis, desde a entrada e os aperitivos até o encerramento. A crítica à época chegou a considera-lo um dos dez melhores restaurantes do mundo. Foi um de meus locais preferidos para, além de frequentar, levar convidados. O Farid Nader lembra até hoje de um pequeno detalhe do serviço: estacionamento com manobrista de carro à porta, hoje comum, não fazia parte ainda dos hábitos usuais; era a década 1960, e para a época era um requinte no serviço.  Lamento que São Paulo tenha perdido este “monumento”: fechou depois que a Vanda, sem ambições econômicas ou empresariais, associou-se a um grupo com perfil oposto ao dela, e que, depois de abrir filiais, a busca pelo lucro levou à perda da qualidade original.

-O peixe: vou relatar uma experiência ímpar, difícil sob vários aspectos. Japão, 1975, eu lá a serviço da Companhia do Metrô, fui convidado a passar um fim de semana na colônia de férias dos engenheiros do Metrô de Tokyo, na cidade de Nikko. Antes de contar a história, vou falar sobre o local. Tudo o que vocês já ouviram dizer sobre as belezas do Japão é encontrado em Nikko de forma potencializada.Llá TUDO é magnífico. Centro de forte atração turística, situada a cerca de 2 horas de Tokyo, é a soma de uma natureza exuberante com obras de imenso valor artístico e arquitetônico. É a cidade dos templos, parques, jardins, lagos, cascatas, além de sediar diversas festas de larga tradição com   seculares trajes típicos. Bem, este é o local onde passei um fim de semana com os colegas engenheiros metroviários.


Nosso programa começou com uma visita à região e com as explicações dos significados das atrações. Não sou do estilo de guardar os nomes de tudo – e no Japão tem muito – nem de tomar anotações; apenas memorizo os nomes mais conhecidos ou dos lugares marcantes. De lá lembro do Lago Chuzenki, da belíssima cascata Kegon Falls, e do Templo Toshogu, famoso Patrimônio da Humanidade da ONU e onde estão os famosos 3 macaquinhos esculpidos em madeira na fachada (“não ouço, não falo, não vejo”). Quando, 16 anos depois (1991) voltamos lá com nossas  filhas Cibele e Nani (15 e 11 anos), fiz uma pequena brincadeira: algum tempo antes elas haviam montado um “puzzle” deste templo, e sem avisá-las que era o mesmo ficamos parados na frente, olhando até reconhecerem que era “o do quebra-cabeça”; então deram, juntas, um grito de alegria e emoção. Na sequencia de minha visita, fomos à colônia de férias, onde tomamos banho de piscina de água quente sulfurosa originária das muitas fontes de águas quentes da região. Na entrada havia um aquário, do qual um dos colegas escolheu qual peixe seria preparado para nosso jantar. Aí chegou a parte difícil: na mesa do jantar estava o peixe escolhido, fatiado da metade até o fim, e a parte da frente voltada para mim (soube depois que era em minha homenagem, como visitante), com ele respirando e me olhando. E o pessoal todo servindo-se das partes fatiadas. Não consegui comer! E, para não cometer a descortesia de uma recusa, fiz algo fora de meus padrões éticos; tenho grande rejeição pela mentira, mas ali eu a utilizei, dizendo que tinha alergia a peixe. Outra dificuldade: mentir no Japão, para japoneses, povo que não mente jamais. Mais: anotei os nomes e as feições de todos os presentes, e nos próximos dois meses que fiquei lá, em cada almoço juntos eu recusava comer peixe cada vez que tinha a presença de algum daqueles presentes neste jantar. Minha refeição nesta noite foi 100% vegetariana: os legumes assados de acompanhamento.

-Pão com queijo: na França é um de meus lanches prediletos. Simples assim, mas a qualidade dos queijos é imbatível, e melhor ainda com um vinho “nacional”; e a variedade! De Gaulle quando Presidente dizia que é impossível governar um país onde são fabricados 365 tipos distintos de queijo. Mas tive uma experiência curiosa. Saindo de Nice, de carro, onde tomamos um café da manhã completíssimo no hotel, iniciamos a subida pelos Alpes. Na hora do almoço, sem muita fome e para não tomar muito tempo, decidimos pelo pão com queijo. 

Passando pela pequena Bréil (menos de 1.000 habitantes), nas belíssimas paisagens dos Alpes Franceses, escolhemos: é aqui! Paramos numa padaria, pedi o pão e em seguida o queijo. A atendente olhou-me como se eu fosse um ET ou um maluco, como se estivesse querendo comprar pneus de carro numa farmácia ou coisa parecida. Com a expressão assustadíssima, disse: “du fromagge, ici? Seulement au supermarché la bas.” (queijo, aqui? Só no supermercado lá em baixo). Lembrei-me na hora de nossas maravilhosas padarias paulistanas, onde tem TUDO, até lanches, almoço, happy hour com os amigos, compras para casa, etc... Pensei em convidar a francesinha para conhecer uma destas padarias.
Certamente eu teria mais histórias de gastronomia a relatar, mas creio que tenha conseguido transmitir alguns casos marcantes.
Encaminhe seus comentários.


06/07/2018

Memórias Gastronômicas - Parte I



Prezados...

É absolutamente inevitável!  Sendo eu uma composição étnico-cultural formada dos libaneses dos quais sou filho, e de gaúcho, do Rio Grande onde nasci e vivi até meus 15 anos, a participação da gastronomia em minha vida ocupa lugar importante.

Não como autor, mas como consumidor. Como autor, mal sei preparar alguns quitutes básicos (um bom contra filé a cavalo, salada de batata com salsichas e alguns sanduiches incrementados) remanescentes do período de estudante, solteiro, morando sozinho na Vila Mariana em São Paulo. Mais ou menos, sei assar um churrasco estilo gaúcho, carne e sal grosso, apenas o suficiente para sobreviver. Como consumidor, guardo na memória alguns momentos que quero compartilhar com vocês. Começo com uma pequena referência ao que foi dito acima: da influência de ser gaúcho-libanês na alimentação.

A culinária no Rio Grande do Sul recebeu múltiplas influências, começando pelo estilo de vida do campo e depois com os imigrantes trazendo seus pratos. Daí surgiu uma grande variedade, como, por exemplo: churrasco, galeto, arroz de carreteiro, charque, pratos alemães, portugueses, italianos, peixes e frutos do mar. E a vinicultura gaúcha, hoje aperfeiçoada com um  incremento na qualidade da produção.


Além da grande fartura, contribuiu para a fama da cozinha do Sul a excelente qualidade dos produtos obtidos com agricultura orgânica. Em Rio Grande, minha cidade natal, os produtores vendiam nas feiras livres, ou então era muito comum comprarmos diretamente em suas chácaras. Por exemplo, o sabor de um tomate gaúcho, de qualquer fruta, legume ou verdura, produzidos nestas condições, é imbatível.

A culinária libanesa é um acontecimento! É formada por uma mescla de fatores em que o fantástico sabor talvez seja o menos importante. Antes dele virão o significado quase religioso de uma comunhão de pessoas ao redor da mesa, somado ao enfoque de ser uma nobre arte.

Sentar à mesma mesa de refeições é para um libanês um atestado de ligação fraterna, e ele não compartilha da mesa com quem não tenha esta ligação. Na religião católica, nascida no Oriente Médio e que professo, o alimento sempre teve uma participação importante nas escrituras e faz até parte de orações (“o pão nosso de cada dia”). Mais exemplos disto são   o forte significado da Última Ceia junto aos fiéis, o primeiro milagre de Cristo (transformação de água em vinho), que foi no Líbano, e o  da multiplicação dos pães e peixes. 


A velha matriarca comandando a cozinha, colocando ali a sabedoria acumulada por muitos séculos, é a rainha da reunião.  A seguir indico alguns aspectos básicos da cultura libanesa, mas ressalvo que nem todos ainda são praticados, pois houve uma modernização e globalização em diversos hábitos e valores do comportamento libanês.

A imensa variedade de pratos e sabores, dispostos à mesa em pequenas travessas sobrepostas em duas a três unidades para conseguir espaço para tudo; a insistência de todo libanês para que o outro coma, e coma, e coma. A tragédia que representa para a cozinheira, sempre dizendo que “ninguém comeu nada” ou, “não gostaram da minha comida”, etc.., por mais que os comensais tenham ali ficado várias horas apreciando os maravilhosos sabores da que considero a melhor comida do mundo (perdoem-me franceses e chineses, que seguem numa guerra para decidir qual a melhor, também do mundo!).  Constitui uma grande descortesia recusar algum alimento.

É muito comum que qualquer participante, ao ver seu prato vazio, sirva alguns alimentos mesmo sem qualquer pedido ou sinal de sua parte.  Ao terminar, convém deixar sobrar um pouco no prato, caso contrário estará transmitindo a ideia de que a refeição servida teria sido insuficiente. Certa vez um libanês me disse que a refeição corriqueira é composta de 25 pratos, e o banquete de 75. Há alguns meses um amigo fez minha inscrição em um grupo de internet, “Libaneses do RS e Mercosul” e que já possui um número elevado de participantes.


Diariamente são postadas mais de 100 fotos e mensagens, sobre uma grande variedade de assuntos. Mas o tema predominante é COMIDA LIBANESA. Já foi criado um almoço semanal em um restaurante libanês em Porto Alegre.
Como resultado desta fusão em minhas origens, tenho lembrança de alguns momentos marcantes ou curiosos relacionados à gastronomia em minha vida, e que passo a expor, de forma aleatória e em absoluta desordem cronológica ou de critério de precedência.

-Luiz Fernando Veríssimo: além do gênio literário, é reconhecido como conhecedor e apreciador da boa gastronomia, e sobre o assunto lançou um livro de crônicas. Lendo-o, fiz coro com seu desejo de processar a Medicina, devido aos muitos anos de prazeres roubados, e eu faria parceria com ele neste processo, cujo motivo é: OVO FRITO.
Durante muitos anos foi execrado, acusado de provocar os maiores malefícios à saúde; então, a Medicina mudou de ideia e retirou o ovo frito do index dos proibidos. E eu, assim como o Veríssimo, que por anos e anos perdemos os prazeres de um ovo frito desmanchando sobre um fumegante arroz? Quem irá nos compensar por esta perda de prazer? Medicina, aguarde nossa aguerrida batalha judicial!


-Mezzee: até vir morar em São Paulo, em 1958, aos 15 anos, pouco frequentei restaurantes. Em Rio Grande comíamos muito pratos árabes, mas sempre em casa, casas de amigos, festas, ou no tradicional banquete organizado todos os anos em novembro pelo Félix Saad, o grande apresentador da “Hora Libanesa” na rádio Minuano (“um programa de coração a coração: do coração libanês ao coração brasileiro”), para as festas da Independência do Líbano.

Por isto ficou marcada minha primeira vez em um restaurante libanês. Férias de julho de 1957, passei o mês em São Paulo, e o Adib Salomão levou-me a conhecer o Almanara da rua Basílio da Gama,  um dos poucos (ou, talvez, o único) de culinária árabe fora da  região da 25 de março, pois ainda não havia se difundido o conhecimento e o gosto na população como é hoje, e que começou  poucos anos depois com a Casa Kibe e a Kibelândia, no centro (Avenidas São João e Ipiranga) .

Foi uma experiência deslumbrante! Servindo no sistema “refeição completa”, era um desfile riquíssimo de variedades culinárias, com apresentação de extremo bom gosto, que somada à excelente qualidade e à beleza da Arquitetura e da decoração do local, típicas da época, tornaram tudo inesquecível.  Veja que lá se vão mais de 60 anos. Hoje o Almanara é uma rede de vários restaurantes, mas o da Basílio da Gama é o único com o sistema rodízio no serviço, e o local preserva toda a beleza original.

-Omelete gaúcho: em certa época, décadas 1990 e 2000, eu viajava mensalmente a Rio Grande, para administrar a loja que ainda tínhamos e face às condições de saúde e depois do falecimento de meus irmãos que dirigiam os negócios. Cheguei a ser “figurinha” conhecida nas empresas de aviação, devido ao voo, São Paulo – Porto Alegre. E, para obter boas tarifas e otimizar o aproveitamento do tempo, usei muitos voos da madrugada, pois ainda tinha o trecho rodoviário, 320 km, até Rio Grande, para o qual eu mantinha uma Santana Quantum numa garagem próxima ao Aeroporto em Porto Alegre. Este carro servia também para meus deslocamentos em Rio Grande, pois eu ficava em nossa casa na praia do Cassino, e os negócios eram na cidade, a 25 km, além de ter sido útil para parentes e amigos que viajavam para o sul e o usaram muito.


Em uma viagem fui tomar o café da manhã no Cuca´s, a menos de uma hora de Porto Alegre. Marco famoso para todos que fazem este percurso, o Cuca´s destaca-se por somar simplicidade e baixo preço a uma boa qualidade de alimentação e, um ambiente e atendimento   agradável e receptivo. Foi lá que pedi uma omelete “só de queijo”. Veio uma fatia de queijo quente, derretido, no meio do prato. Só! O Cuca´s inventou a omelete sem ovo! Tenho curiosidade em saber o que diriam a respeito o Anquier e o Jackin.

E em São Paulo? Calma! Eu chego lá.

Essas e demais lembranças ainda serão compartilhadas na próxima postagem. São pratos e lugares inesquecíveis que os mantenho muito vivos nas deliciosas memórias gastronômicas.

Continuação na Parte II. Até mais...

18/06/2018

Uma aula de economia



 Prezados,

O povo libanês, descendente dos fenícios, tem como uma das principais características, o talento comercial. Isto se manifesta de várias maneiras no comportamento rotineiro e é usado de forma espontânea, automática.

Posso ser considerado “vergonha da raça”, pois não tenho, neste setor, nada de libanês em meus conceitos e em meus comportamentos. Vou relatar um fato que exemplifica este conceito.

Na minha faixa etária dos 10 aos 15 anos, ainda morando em Rio Grande, precisei ir diversas vezes a Pelotas (a apenas 50 km) para fazer alguns serviços (documentos, livros, apostilas, etc...)  do Camil, meu irmão, referentes à Faculdade que ele cursava.
Ia quase sempre de trem que era eficiente e econômico, além de seguro, uma criança podia viajar sozinha sem cogitar de possíveis violências.


Certa vez, calor e com sede, entrei num bar e pedi um copo de água gelada. Na época não tínhamos a cultura e o hábito de tomar água mineral, que era considerada  tratamento para quem tivesse algum problema de saúde. A água que pedi foi servida e COBRADA. Fiquei surpreso, pois em Rio Grande era comum pedir água (não mineral) em qualquer lugar e não era mercadoria a ser vendida e paga.

Algum tempo depois, já com 15 anos, fui estudar em São Paulo, no Colégio Arquidiocesano. Lá conheci e fiquei muito amigo de outro gaúcho, pelotense, SÉRGIO SOARES OLIVÉ LEITE, que depois tornou-se médico e dono de uma grande clínica psiquiátrica fundada por seu pai, em Pelotas. Mas nossa boa amizade não impediu que aflorasse a velha e famosa rixa Rio Grande e Pelotas, nós “papareias” versus eles, “sebeiros”.


Sempre em tom amigável e brincalhão e mantendo a boa amizade, vinham os comentários e críticas aos “podres” de cada cidade. Então, numa dessas, “soltei” o fato da cobrança do copo d´água, qualificando-o como absurdo, abusivo, desumano, etc... Veio então, por parte do Sérgio, a “aula” de economia que em mim ficou inesquecível:

“Jasel, o dono do bar dispendeu tempo e mão de obra para encher o filtro, depois para passar a água filtrada para a garrafa e colocar na geladeira, depois tirar da geladeira e servir no copo, depois para lavar e guardar o copo. Gastou energia elétrica para gelar, gastou água e sabão na lavagem do copo, etc... E ali era um estabelecimento comercial, seu local de trabalho. Por que não haveria de cobrar?”


Lógica irretorquível foi para mim uma lição de vida. Adotei a mesma lógica na minha vida e em minha profissão de Engenheiro Civil. Tornei-me altamente competente na elaboração de orçamentos, tanto em atividades pessoais como profissionais, e disto tenho muitos exemplos de experiências de sucesso.

Meu bom amigo SÉRGIO. Devo isto à aula que Você me deu no pátio do Colégio Arquidiocesano.

Obrigado, amigos.

09/06/2018

Os Molhes da Barra do Rio Grande



Prezados,


Uma das principais atrações turísticas da cidade do Rio Grande e de sua Praia do Cassino! Imperdível!

No entanto considero difícil decidir o que é mais fascinante, se os atrativos e belezas que tanto encantam os visitantes, ou a magnífica história de sua implantação devida à importância histórica e comercial e por ser uma das maiores obras de Engenharia Portuária do mundo. Vou tentar fornecer a Você, leitor, dados sobre os dois aspectos envolvidos para uma comparação.

1- OS MOLHES PARA OS VISITANTES

A Lagoa dos Patos e o Porto de Rio Grande, um dos mais importantes do país, têm acesso a partir do Oceano através do Canal do Rio Grande. Para garantir a profundidade necessária à navegação foram construídos, a partir das praias de Rio Grande (Praia do Cassino) e São José do Norte, duas muralhas longitudinais de pedra adentrando o oceano em cerca de 4 km. A mais frequentada e de acesso mais fácil é a do lado sul, Cassino. 

Vamos listar alguns atrativos para os visitantes:
-a atração mais pitoresca, por ser atípica: no meio existem trilhos ferroviários por onde correm pequenas vagonetas abertas, da praia até a ponta no oceano. Existem várias, tocadas por vagoneteiros, com capacidade para cerca de dez pessoas.


A energia? Eólica! São dotadas de velas e o vento gera seu movimento. O passeio de ida e volta, com algumas paradas no caminho e na extremidade, demanda cerca de uma hora.

Ao se cruzarem vagonetas em sentidos opostos, uma delas é retirada dos trilhos e recolocada após a passagem da outra.
-outra forma de passeio é caminhando, até uma parte do caminho ou até a ponta para os mais animados.
-o local é excelente para pesca. Muitos acampam nas pedras e até passam a noite inteira para praticá-la. Até a década 1960 assisti ali a vários campeonatos internacionais de pesca, sempre no mês de novembro; não tenho conhecimento de que ainda existam.
-as vistas são magníficas, lindas, de perder o fôlego; já vi muita gente chorando de emoção diante da beleza da paisagem; constitui uma exceção à monotonia visual do litoral gaúcho. 

Adentrando lentamente até quase alto-mar (4km.), vendo de um lado a praia lotada de banhistas e do outro o canal de acesso ao porto com muitos navios grandes entrando, vendo os leões marinhos que se abrigam nas pedras, os golfinhos,  os peixes e os demais animais pulando; apreciando os contrastes dos efeitos visuais e multicoloridos do pôr do sol e do nascer do sol (sim, ou madrugamos ou nos deslocamos da festa ou baile do Clube SAC ou  de outras para ver o sol raiar); tudo isto é de uma beleza indescritível.
-geralmente em época de verão  o mar ali é bastante calmo. Eventualmente deparamos com ondas maiores que ao impacto com as pedras chegam a molhar os visitantes. No inverno já é menos recomendável fazer este passeio. 

Lembro de uma vez em 1958, eu estudante interno em São Paulo, vi uma grande reportagem no Estadão com fotos de uma tempestade no Rio Grande que chegou a destruir os trilhos, que ficaram contorcidos.
-na praia que dá acesso aos molhes, também no verão, forma-se uma concentração de público e de trailers/lanchonetes. Em geral a higiene e a qualidade das bebidas e lanches são muito boas (isto vale posso dizer, para toda a cidade e o Cassino).

Para isto contribui, com certeza, o já renomado padrão de qualidade em alimentação do Rio Grande do Sul, e também meu grande amigo Arizinho Féris quando Secretário da Saúde da Prefeitura do Rio Grande, rigorosíssimo nas exigências sanitárias. Há muito tempo que não vejo e não tenho notícias do “Cabeça” e da Dona Vera, autora do melhor pastel de camarão do planeta; já mereceu até uma citação em crônica do Luiz Fernando Veríssimo. Aposentaram-se? Para entender o porquê do apelido “Cabeça”, não precisa muito: bastaria conhece-lo, dispensa explicações! 

2- OS MOLHES – SUA HISTÓRIA

A cidade do Rio Grande, fundada em 1737 por Portugal, foi o início da ocupação do Estado. Isto se deve à sua localização, estratégica para uma época em que a navegação era o transporte entre a Europa e a América. A cidade está situada na extremidade sul da Lagoa dos Patos, onde  o Canal do  Rio Grande liga o oceano à Lagoa. E, como as características do litoral gaúcho não permitem grandes portos, Rio Grande possui o único porto marítimo do estado.

No entanto, devido às condições físicas e geográficas, tais como ventos, correntes marítimas, conformação das praias, entre outras, o acesso à Lagoa dos Patos sempre foi extremamente dificultado pelas alterações dos bancos de areia no canal. De início, devido às disputas pela posse entre Portugal e Espanha, existia uma importância estratégica militar fundamental para acessar o porto: entre Colônia do Sacramento, fundada por Portugal onde hoje é Uruguai, e o Rio de Janeiro, era necessário um ponto de apoio nos deslocamentos de tropas, afora o porto de Laguna, em Santa Catarina.


A fundação da cidade deu-se com a construção do Forte Jesus Maria José. Posteriormente, tendo o sul já se tornado um grande produtor de alimentos, as trocas comerciais passaram a ter grande importância. Charque, depois carne e trigo, faziam parte deste conjunto. E as dificuldades de acesso eram conhecidas por todos os navegantes e governos do mundo, existindo relatos de navios parados por vários dias à espera de poder entrar, e de muitos navios encalhados. Esta situação, e mais as violentas tempestades em época de inverno, resultaram na denominação de “cemitério de navios” para a região. Os restos do navio Altair naufragado em 1976, na praia a cerca de 20km. dalí, além de serem atualmente uma curiosa atração turística, constituem uma amostra da situação exposta acima.

Rio Grande já havia se tornado um grande centro, e seus dirigentes junto com a Câmara de Comércio faziam muitas gestões políticas para solucionar o problema da dificuldade de acesso. Felizmente o Governador Leonel Brizola, quando governou nas décadas 1950-1960, não conseguiu seu intento de valorizar o porto de Porto Alegre com seu projeto de mais um canal ligando a Lagoa dos Patos ao oceano; os estudos à época revelaram que seria um desastre ecológico, pois iria tornar salgadas as águas da lagoa, com prejuízos imensos. Além, claro, do grande prejuízo econômico para a cidade de Rio Grande.

O século XIX foi muito rico em estudos e projetos para o acesso ao porto. Dom Pedro II, em duas visitas à cidade, fez acelerar os estudos. A execução das obras veio a ocorrer somente  no início do século XX, pois os interesses comerciais envolvidos, face a grandiosidade da obra, geraram tumultos e dificuldades contratuais. As pedras vieram do Município de Capão do Leão, distante quase 100km, transportadas por ferrovia construída simultânea e especialmente para esta obra.

Mesmo os molhes tendo cumprido sua finalidade de prolongar a profundidade do canal até um ponto já profundo do oceano, para os procedimentos de acesso ainda se mantem a necessidade do trabalho conjunto entre o comando dos navios e a equipe de praticagem da barra, existente desde os tempos do império. Não sei se existe exigência legal de contratar um prático, mas a operacional é imprescindível; já aconteceram (raros) casos de comandantes de navios, principalmente estrangeiros, dispensarem estes serviços por economia e gastarem muito mais em desatolar seus navios.

Finalizo com uma sugestão: não se preocupem com o que é mais atrativo, se as belezas do lugar ou sua história fascinante. Visitem!

Os que já conhecem a região, como eu, não se cansam de repetir o passeio.

Aos que ainda não foram, tenho certeza de que terão momentos inesquecíveis.

Abraço.