31/07/2018

Memórias gastronômicas - Parte II


Prezados,

Tive que dividir a postagem em duas partes pois, as memórias gastronômicas para mim e  qualquer pessoa, têm pelo menos dupla importância: sensitiva e cultural.
Sensitiva, por permitir sentir a vida por todos os sentidos do corpo humano e, cultural por proporcionar a compreensão da construção histórica de hábitos e atitudes influenciados pela influência de grupos de pessoas das diversas regiões do pais e do mundo.
Continuando com a parte II da postagem, não poderia me esquecer dos locais e dos sabores que descrevo abaixo.

-Salada Paulista: conheci em 1957, pouco antes de mudar-me para São Paulo. Foi um marco inesquecível da cidade, localizado no centro, Av. Ipiranga entre São João e 24 de maio, quando o centro de São Paulo era realmente o centro: toda a atividade era lá. Para remeter uma carta ou um telegrama, eu tomava o bonde ou o ônibus para ir até o correio central, na São João com Anhangabaú. 

Ao lado do restaurante, a banca de jornais da Ipiranga com São João era a única em São Paulo que vendia jornal do Rio Grande do Sul, então virou um ponto de encontro de gaúchos para, entre um e outro “baaah, tchê”, matar saudades da terra. Na “Salada” não tinha mesas, era um longo balcão com banquetas, servia lanches, sanduiches e pratos rápidos; tudo muito fresco, saboroso e barato. O prato que simbolizava a casa era a salada de batatas com salsicha, e um dos mais pedidos era o sanduiche de bife a milanesa. Lamento que tenha fechado, devido à dinâmica da cidade com seu crescimento, modernização e, acredito americanismos que tiraram o espaço do “cachorro quente” para substituir pelo “hot dog”.

-Cachorro quente: a citação acima fez aflorar em minha memória o cardápio em nossa casa, infância em Rio Grande, nos sábados à noite. Por muitos e muitos anos minha mãe preparava neste dia o cachorro quente, em sua versão absolutamente original: pão francês (“cacetinho” no idioma gauchês), salsichas, molho de tomate, cebola e salsa, mostarda e pimenta. Uma delícia, até hoje desprezo qualquer “cachorrão” com um monte de componentes se houver esta lembrança de mamãe em troca. Um caso “puxa” outro; em 1973, pouco mais de 2 anos de casados, Olga e eu fomos de carro a Buenos Aires, onde tinha sido parte de nossa lua de mel. Fizemos excelentes compras de jogos de louças, copos, taças, peças de cristal e talheres; o carro, Corcel, veio lotado. Saímos cedo de Buenos Aires, atravessamos a balsa em Colônia, e tivemos um atraso em Montevidéu para esperar o comércio abrir (fecha para almoço) para trocar uma mercadoria comprada na ida; seguimos viagem em direção a Chuy, sem almoçar. Fomos parados por uma fiscalização fazendária, devido à quantidade de mercadorias; houve ameaça de apreensão. Conseguimos convencer o agente que não tínhamos nenhuma intenção de vender, e ele liberou, mas nos deu um prazo, o estritamente necessário para chegar a Chuy onde deveríamos apresentar o passe que ele nos forneceu e sair do país. Resultado: entramos no Brasil – Chui – às 19hs., tendo como alimentação única no dia apenas o café da manhã em Buenos Aires. Nossa salvação foi um trailer vendendo “cachorrão”, novidade à época e que conhecemos lá. Claro que foi o lanche mais saboroso de nossas vidas! Inesquecível!

-Dinho´s Place: tradicional churrascaria, aberta na década 1950 por um “patrício” – Fuad Zogaib – e daí saiu o nome da casa, derivado do diminutivo afetivo do nome – Fuadinho. Até hoje, idade avançada, ele comparece na casa, que se firmou na cidade pelo excelente padrão – instalações, atendimento, qualidade dos produtos; frequento-a devido a   todo este conjunto.
Lá tenho preferência pelos churrascos, pela ótima feijoada às quartas e sábados, e pelo buffet de peixes e frutos do mar às sextas; mas de tudo, em especial acho imbatível o frango desossado grelhado. Sempre senti muita falta, aqui em São Paulo, do galeto do Rio Grande do Sul; nunca achei nenhum que pudesse lembrar o que comemos lá, em qualquer lugar, mas principalmente na região da Serra Gaúcha – Bento Gonçalves, Caxias, etc... E o Dinho´s consegue fazer-me sentir o sabor do “meu” Rio Grande. E ele está marcado também pelos nossos jantares de turma da faculdade, a gloriosa turma da Poli 65, que se reúne anualmente graças ao fenomenal empenho, dedicação e organização do Bernasconi (além dos puxões de orelha às vezes  nos “sumidos” que ficam tempo sem aparecer);  por vários anos tivemos lá uma sala reservada para este evento, no qual os circunspectos engenheiros, que alguns minutos antes estavam em seus escritórios ou reuniões tomando decisões importantíssimas, transformam-se em garotos estudantes. Faz-me lembrar também uma figura especial, muito querida, o Sr. Jamil Chammas. Patrício dos mais tradicionais, pai da Beth e sogro do Simão (o Zé Carlos), lá fazia seus almoços de domingo reunindo a família. Ficou famoso o “ritual” da escolha do prato: cada vez folhava e consultava detidamente o vasto cardápio, com grandes dúvidas sobre o que escolher. Vinha então a decisão: um filé com fritas; SEMPRE!!! Uma explicação sobre o porque de citar acima nome do Zé Carlos: tenho vários grandes amigos com o mesmo nome – Simão, então achei que deveria esclarecer qual era; tenho até um grande amigo, em Rio Grande, que é   plural: meu prezado SIMÕES.

-Memórias: existem diversos pratos  dos quais eu lembro onde e em que circunstâncias   provei pela primeira vez, e vou relatar quatro casos. Não tenho certeza, creio que foi com 8 a 10 anos de idade; em Rio Grande tínhamos o hábito de abrir a refeição com um prato de sopa, então nesta época surgiu   para provarmos um vidro de molho denso, cor vermelho forte, um pouco adocicado, para misturar na sopa, e com um nome esquisito: ketchup, hoje difundido para temperar sanduiches. Conheci o   creme de milho no fim dos anos 50; o Nicolau Safatle, grande amigo, médico, casou-se em Botucatu com a Magali, de uma família muito conceituada, filha do Dr. Brasil Blasi. Fomos em um grupo grande ao casamento. Pouco tempo depois, o casal morando na Av. Angélica, em São Paulo, ofereceu-nos um almoço. Lá, entre outros quitutes, conheci o creme de milho, que além de não conhecer também nunca ouvira falar; apreciei muito o sabor. Depois deste almoço comi muitas vezes. A Olga gosta muito, seguidamente pedimos comida do Juca Alemão em boa parte devido ao creme de milho que eles preparam. Atualmente já não aprecio tanto porque meu gosto   por alimentos adocicados diminuiu, acho-os enjoativos. Mais uma experiência com novidades culinárias eu já citei em outra crônica; foram as aulas do Jorge Yamashita sobre o Japão. No bairro da Liberdade, centro das colônias japonesa, chinesa e coreana, comi pela primeira vez comida japonesa, em 1975, como treino para viajar para lá. Pode parecer estranho, devido à grande penetração hoje no gosto da população em todo o Brasil, mas naquela época ninguém que não fosse da colônia conhecia.  Outro caso, mais recente, por volta de 1992/1993, eu era Diretor de uma estatal com escritório no Brooklin, próximo do Clube Hípica. Um dos diretores, o Parreirinha, era sócio do Clube e seguidamente íamos almoçar lá, todos os diretores. Nos restaurantes não era conhecido o creme de papaia, mas no do clube já era servido; gostei muito!  E quando passou a ser servido nos restaurantes, também caiu no gosto da Olga, que pedia seguidamente.

-Bauru: já é muito conhecida de a história da invenção do bauru e a razão do nome. Não é preciso repeti-las aqui. Meu irmão Camil, que como todos nós da família era um grande apreciador de bons sanduiches, conheceu-o aqui onde ele “nasceu”, São Paulo, e levou a novidade para Rio Grande. Minha mãe adotou-o e incluiu na rotina dos lanches de casa; logo fez sucesso entre os amigos, que vinham para saborear a novidade “importada” de São Paulo. Era a década de 1950. Após algum tempo as lanchonetes começaram a preparar, e teve grande expansão na cidade. Algumas tornaram-se famosas, e passou a ser o lanche preferido da turma da madrugada e do fim de noite. O “bauru do abrigo” – abrigo era o nome de uma estação de bondes em Rio Grande – passou a ser programa obrigatório nas madrugadas. Surgiu, então, um novo capítulo desta história: um dos hábitos do sulista é o de aprimorar seus quitutes mais apreciados, como fez por exemplo com o cachorro quente – criou o “cachorrão”, praticamente uma refeição, antes que São Paulo o adotasse. 

E fez o mesmo com o bauru: criou o “bauru no prato”. Uma receita riquíssima que consegue alimentar várias pessoas. O mais famoso era feito em Caxias do Sul. Uma vez, 1965, vindo de São Paulo de carro, Farid, Zé Roberto “Abacate” e eu, em um fusca recém comprado pelo Farid, programamos a viagem para dormir em Caxias, com a intenção (e   o estômago) mirando o “bauru no prato”. Não lembro bem o nome do local, muito famoso à época, talvez “Recreio dos Estudantes” ou “Recreio da Juventude”? Atualmente constitui uma variante da receita original; o velho bauru tradicional (rosbife, pepino, tomate, orégano, pão, manteiga e queijos) foi incrementado   e é conhecido como “bauru gaúcho” (opções de bife, linguiça, frango ou coração; presunto, queijos, tomate, cebola, alho, ketchup, orégano, servido no prato).

-A bordo: existem dois locais onde, quando se fala em comer, surge de imediato uma expressão de desprezo, comida pouca e ruim: hospital e avião. Avião, hoje, nem isso, é sinônimo de quase “passar fome”. Mas houve época em que esta viagem era um acontecimento, coberto de charme e elegância; e a nossa Varig – (Viação Aérea Riograndense, maldosamente apelidada de “Vários Alemães Reunidos Iludindo Gaúchos”) contribuiu muito para isto. Seu padrão de serviços estava entre os melhores do mundo. 


Chegava ao requinte de buscar cada passageiro em casa para levar ao aeroporto, de limousine; mas eram menos de 30 passageiros, a capacidade de um DC-3. E as refeições de bordo eram banquetes, mesmo! Em qualidade, quantidade, variedade e atendimento. Certa vez minha filha Cibele, criança, comeu um quindim a bordo, e passou VÁRIOS ANOS nos pedindo para voltar àquele avião para comer O quindim. Seria o doce mais caro do mundo! Mas a Varig foi responsável também, usando sua grande força política, por atrasar em muitos anos o ingresso  da aviação brasileira no “lowcost” e nos voos fretados (charter), que a Monark Turismo popularizou alguns anos depois.

Sendo extremamente elitista em seus conceitos, defendia as tarifas elevadas como eram; foi, na aviação, o que é o Laboratório de Análises Clínicas Fleury em São Paulo na medicina, de alta qualidade, caro e elitista. Aliás, com os preços e demais condição dos bilhetes aéreos praticados hoje seria absolutamente impensável manter um padrão de qualidade como aquele. No entanto, superando Varig e qualquer outra empresa em que voei, o maior banquete a bordo foi em um voo Avianca para os Estados Unidos via Colômbia onde fomos visitar parentes. A qualidade da empresa deixou muito a desejar, mas o almoço... Nunca imaginei algo tão fantástico a bordo de um avião. O  menu era criação do maior nome mundial da gastronomia à época, Paul Bocuse. Banquete de verdade!

-Churrasco: esta é uma lembrança que, acredito, não seja apenas minha, mas coletiva. Um bom churrasco está no gosto de quase toda a humanidade. E, óbvio, tratando deste tema é impossível esquecer nossos “hermanos” uruguaios e argentinos e, no Brasil, o Rio Grande do Sul. A excelência vem de uma composição de fatores, entre os quais estão as raças nobres de gado que se desenvolveram na região; a topografia com grandes campos e sem aclives pronunciados, que permitiu criação adequada; o preparo, que soma ritual, tradição e experiência. O caráter festivo e de comunhão entre as pessoas em qualquer “churrascada”. E esta qualidade é encontrada sempre, nas reuniões entre familiares e amigos, nos restaurantes, todos, desde o sofisticado até o humilde “boteco”.

-Darci: São Paulo é um dos maiores centros gastronômicos do mundo; é muito usada a expressão “restaurante é a praia do paulistano”. Um estudo da ONU feito há alguns anos colocou-a entre as quatro melhores, junto com Paris, Nova Iorque e Tókyo. No item “churrasco” tem casas excelentes, e quero registrar uma que considero marcante: a “Costela de Ouro”, aberta na década 1960 no Planalto Paulista (está lá até hoje) pelo Darci. Gaúcho de Pelotas, ex  funcionário da Varig, excelente assador, era requisitado pelo poderoso Rubem Berta para preparar quando tinha vontade ou recebia alguma visita importante (e tinha muitas). Ao aposentar-se, abriu a casa num andar superior  na Av. Piassanguaba (no térreo tinha uma padaria) e de imediato “bombou” no gosto paulistano; estou entre os primeiros clientes. A casa sobressai tanto pela qualidade do churrasco como pela autenticidade com relação ao afamado churrasco gaúcho. 

-O trivial: não poderia ficar fora a marca daquelas refeições triviais, extremamente saborosas. A cozinha brasileira é rica em sabores, e além dos milhões de   donas de casa que preparam as refeições para suas famílias temos também um tipo marcante: a comida de pensão. Quase todos os que saíram de casa para estudar ou trabalhar em outra cidade passaram por esta experiência. O trivial paulista, por exemplo, nos oferece um desfile de sabores que incluem, entre outros, saladas diversas (principalmente verde e maionese), macarrão, bife, frango, bisteca suína, ovo frito, arroz, feijão, legumes diversos cozidos... Eu, mesmo casado, fui várias vezes com a Olga e também com nossas filhas almoçar em alguma destas pensões. Nas nossas frequentes idas a Águas de Lindóia ou Serra Negra seguidamente fomos  almoçar no Sagrado Coração, ou em idas a Santos almoçar na Pensão Paulista (hoje Hotel). Citei apenas o trivial paulista, no Brasil existem muitos outros como o baiano e o mineiro. Devo citar também a nossa feijoada, para mim um dos pratos mais saborosos do mundo! Não importa a polêmica quanto à sua origem – escravos, cozido português – qualquer feijoada é imbatível em sabor.

-Maria Fulô: mais um dos muitos lugares em São Paulo onde fui levado a conhecer pelo Adib Salomão; creio que devo falar um pouco dele. De Rio Grande, sétimo e último filho de João Salomão, amigo de meu pai desde a juventude no Líbano; idade 9 anos além da minha; nossas famílias tiveram sempre uma convivência muito grande; formou-se em Direito em Porto Alegre, ainda jovem foi um dos fundadores de Faculdades em Rio Grande, ocupou cargos no governo estadual, onde chegou a Secretário da Educação; começando a namorar a Juçara Mansur (não é erro de grafia; é com “ç” mesmo), deslocou seu foco para São Paulo; com a namorada, depois noiva e esposa, o casal praticamente “adotou-me” para a vida mundana numa fase em que eu não tinha nenhuma condição financeira nem conhecimentos para tal. Voltemos ao Maria Fulô! Restaurante aberto em São Paulo, no Alto da Boa Vista, zona sul e região residencial nobre, por uma conterrânea, da cidade de Rio Grande, Vanda, grande banqueteira. Dedicou-se à cozinha baiana, e o restaurante era o que poderia ser classificado como PERFEITO. Instalações extremamente luxuosas e de bom gosto, excelente serviço   em atenção e eficiência, servia refeição completa composta por um desfile dos principais pratos da culinária baiana com apresentação e preparo impecáveis, desde a entrada e os aperitivos até o encerramento. A crítica à época chegou a considera-lo um dos dez melhores restaurantes do mundo. Foi um de meus locais preferidos para, além de frequentar, levar convidados. O Farid Nader lembra até hoje de um pequeno detalhe do serviço: estacionamento com manobrista de carro à porta, hoje comum, não fazia parte ainda dos hábitos usuais; era a década 1960, e para a época era um requinte no serviço.  Lamento que São Paulo tenha perdido este “monumento”: fechou depois que a Vanda, sem ambições econômicas ou empresariais, associou-se a um grupo com perfil oposto ao dela, e que, depois de abrir filiais, a busca pelo lucro levou à perda da qualidade original.

-O peixe: vou relatar uma experiência ímpar, difícil sob vários aspectos. Japão, 1975, eu lá a serviço da Companhia do Metrô, fui convidado a passar um fim de semana na colônia de férias dos engenheiros do Metrô de Tokyo, na cidade de Nikko. Antes de contar a história, vou falar sobre o local. Tudo o que vocês já ouviram dizer sobre as belezas do Japão é encontrado em Nikko de forma potencializada.Llá TUDO é magnífico. Centro de forte atração turística, situada a cerca de 2 horas de Tokyo, é a soma de uma natureza exuberante com obras de imenso valor artístico e arquitetônico. É a cidade dos templos, parques, jardins, lagos, cascatas, além de sediar diversas festas de larga tradição com   seculares trajes típicos. Bem, este é o local onde passei um fim de semana com os colegas engenheiros metroviários.


Nosso programa começou com uma visita à região e com as explicações dos significados das atrações. Não sou do estilo de guardar os nomes de tudo – e no Japão tem muito – nem de tomar anotações; apenas memorizo os nomes mais conhecidos ou dos lugares marcantes. De lá lembro do Lago Chuzenki, da belíssima cascata Kegon Falls, e do Templo Toshogu, famoso Patrimônio da Humanidade da ONU e onde estão os famosos 3 macaquinhos esculpidos em madeira na fachada (“não ouço, não falo, não vejo”). Quando, 16 anos depois (1991) voltamos lá com nossas  filhas Cibele e Nani (15 e 11 anos), fiz uma pequena brincadeira: algum tempo antes elas haviam montado um “puzzle” deste templo, e sem avisá-las que era o mesmo ficamos parados na frente, olhando até reconhecerem que era “o do quebra-cabeça”; então deram, juntas, um grito de alegria e emoção. Na sequencia de minha visita, fomos à colônia de férias, onde tomamos banho de piscina de água quente sulfurosa originária das muitas fontes de águas quentes da região. Na entrada havia um aquário, do qual um dos colegas escolheu qual peixe seria preparado para nosso jantar. Aí chegou a parte difícil: na mesa do jantar estava o peixe escolhido, fatiado da metade até o fim, e a parte da frente voltada para mim (soube depois que era em minha homenagem, como visitante), com ele respirando e me olhando. E o pessoal todo servindo-se das partes fatiadas. Não consegui comer! E, para não cometer a descortesia de uma recusa, fiz algo fora de meus padrões éticos; tenho grande rejeição pela mentira, mas ali eu a utilizei, dizendo que tinha alergia a peixe. Outra dificuldade: mentir no Japão, para japoneses, povo que não mente jamais. Mais: anotei os nomes e as feições de todos os presentes, e nos próximos dois meses que fiquei lá, em cada almoço juntos eu recusava comer peixe cada vez que tinha a presença de algum daqueles presentes neste jantar. Minha refeição nesta noite foi 100% vegetariana: os legumes assados de acompanhamento.

-Pão com queijo: na França é um de meus lanches prediletos. Simples assim, mas a qualidade dos queijos é imbatível, e melhor ainda com um vinho “nacional”; e a variedade! De Gaulle quando Presidente dizia que é impossível governar um país onde são fabricados 365 tipos distintos de queijo. Mas tive uma experiência curiosa. Saindo de Nice, de carro, onde tomamos um café da manhã completíssimo no hotel, iniciamos a subida pelos Alpes. Na hora do almoço, sem muita fome e para não tomar muito tempo, decidimos pelo pão com queijo. 

Passando pela pequena Bréil (menos de 1.000 habitantes), nas belíssimas paisagens dos Alpes Franceses, escolhemos: é aqui! Paramos numa padaria, pedi o pão e em seguida o queijo. A atendente olhou-me como se eu fosse um ET ou um maluco, como se estivesse querendo comprar pneus de carro numa farmácia ou coisa parecida. Com a expressão assustadíssima, disse: “du fromagge, ici? Seulement au supermarché la bas.” (queijo, aqui? Só no supermercado lá em baixo). Lembrei-me na hora de nossas maravilhosas padarias paulistanas, onde tem TUDO, até lanches, almoço, happy hour com os amigos, compras para casa, etc... Pensei em convidar a francesinha para conhecer uma destas padarias.
Certamente eu teria mais histórias de gastronomia a relatar, mas creio que tenha conseguido transmitir alguns casos marcantes.
Encaminhe seus comentários.


06/07/2018

Memórias Gastronômicas - Parte I



Prezados...

É absolutamente inevitável!  Sendo eu uma composição étnico-cultural formada dos libaneses dos quais sou filho, e de gaúcho, do Rio Grande onde nasci e vivi até meus 15 anos, a participação da gastronomia em minha vida ocupa lugar importante.

Não como autor, mas como consumidor. Como autor, mal sei preparar alguns quitutes básicos (um bom contra filé a cavalo, salada de batata com salsichas e alguns sanduiches incrementados) remanescentes do período de estudante, solteiro, morando sozinho na Vila Mariana em São Paulo. Mais ou menos, sei assar um churrasco estilo gaúcho, carne e sal grosso, apenas o suficiente para sobreviver. Como consumidor, guardo na memória alguns momentos que quero compartilhar com vocês. Começo com uma pequena referência ao que foi dito acima: da influência de ser gaúcho-libanês na alimentação.

A culinária no Rio Grande do Sul recebeu múltiplas influências, começando pelo estilo de vida do campo e depois com os imigrantes trazendo seus pratos. Daí surgiu uma grande variedade, como, por exemplo: churrasco, galeto, arroz de carreteiro, charque, pratos alemães, portugueses, italianos, peixes e frutos do mar. E a vinicultura gaúcha, hoje aperfeiçoada com um  incremento na qualidade da produção.


Além da grande fartura, contribuiu para a fama da cozinha do Sul a excelente qualidade dos produtos obtidos com agricultura orgânica. Em Rio Grande, minha cidade natal, os produtores vendiam nas feiras livres, ou então era muito comum comprarmos diretamente em suas chácaras. Por exemplo, o sabor de um tomate gaúcho, de qualquer fruta, legume ou verdura, produzidos nestas condições, é imbatível.

A culinária libanesa é um acontecimento! É formada por uma mescla de fatores em que o fantástico sabor talvez seja o menos importante. Antes dele virão o significado quase religioso de uma comunhão de pessoas ao redor da mesa, somado ao enfoque de ser uma nobre arte.

Sentar à mesma mesa de refeições é para um libanês um atestado de ligação fraterna, e ele não compartilha da mesa com quem não tenha esta ligação. Na religião católica, nascida no Oriente Médio e que professo, o alimento sempre teve uma participação importante nas escrituras e faz até parte de orações (“o pão nosso de cada dia”). Mais exemplos disto são   o forte significado da Última Ceia junto aos fiéis, o primeiro milagre de Cristo (transformação de água em vinho), que foi no Líbano, e o  da multiplicação dos pães e peixes. 


A velha matriarca comandando a cozinha, colocando ali a sabedoria acumulada por muitos séculos, é a rainha da reunião.  A seguir indico alguns aspectos básicos da cultura libanesa, mas ressalvo que nem todos ainda são praticados, pois houve uma modernização e globalização em diversos hábitos e valores do comportamento libanês.

A imensa variedade de pratos e sabores, dispostos à mesa em pequenas travessas sobrepostas em duas a três unidades para conseguir espaço para tudo; a insistência de todo libanês para que o outro coma, e coma, e coma. A tragédia que representa para a cozinheira, sempre dizendo que “ninguém comeu nada” ou, “não gostaram da minha comida”, etc.., por mais que os comensais tenham ali ficado várias horas apreciando os maravilhosos sabores da que considero a melhor comida do mundo (perdoem-me franceses e chineses, que seguem numa guerra para decidir qual a melhor, também do mundo!).  Constitui uma grande descortesia recusar algum alimento.

É muito comum que qualquer participante, ao ver seu prato vazio, sirva alguns alimentos mesmo sem qualquer pedido ou sinal de sua parte.  Ao terminar, convém deixar sobrar um pouco no prato, caso contrário estará transmitindo a ideia de que a refeição servida teria sido insuficiente. Certa vez um libanês me disse que a refeição corriqueira é composta de 25 pratos, e o banquete de 75. Há alguns meses um amigo fez minha inscrição em um grupo de internet, “Libaneses do RS e Mercosul” e que já possui um número elevado de participantes.


Diariamente são postadas mais de 100 fotos e mensagens, sobre uma grande variedade de assuntos. Mas o tema predominante é COMIDA LIBANESA. Já foi criado um almoço semanal em um restaurante libanês em Porto Alegre.
Como resultado desta fusão em minhas origens, tenho lembrança de alguns momentos marcantes ou curiosos relacionados à gastronomia em minha vida, e que passo a expor, de forma aleatória e em absoluta desordem cronológica ou de critério de precedência.

-Luiz Fernando Veríssimo: além do gênio literário, é reconhecido como conhecedor e apreciador da boa gastronomia, e sobre o assunto lançou um livro de crônicas. Lendo-o, fiz coro com seu desejo de processar a Medicina, devido aos muitos anos de prazeres roubados, e eu faria parceria com ele neste processo, cujo motivo é: OVO FRITO.
Durante muitos anos foi execrado, acusado de provocar os maiores malefícios à saúde; então, a Medicina mudou de ideia e retirou o ovo frito do index dos proibidos. E eu, assim como o Veríssimo, que por anos e anos perdemos os prazeres de um ovo frito desmanchando sobre um fumegante arroz? Quem irá nos compensar por esta perda de prazer? Medicina, aguarde nossa aguerrida batalha judicial!


-Mezzee: até vir morar em São Paulo, em 1958, aos 15 anos, pouco frequentei restaurantes. Em Rio Grande comíamos muito pratos árabes, mas sempre em casa, casas de amigos, festas, ou no tradicional banquete organizado todos os anos em novembro pelo Félix Saad, o grande apresentador da “Hora Libanesa” na rádio Minuano (“um programa de coração a coração: do coração libanês ao coração brasileiro”), para as festas da Independência do Líbano.

Por isto ficou marcada minha primeira vez em um restaurante libanês. Férias de julho de 1957, passei o mês em São Paulo, e o Adib Salomão levou-me a conhecer o Almanara da rua Basílio da Gama,  um dos poucos (ou, talvez, o único) de culinária árabe fora da  região da 25 de março, pois ainda não havia se difundido o conhecimento e o gosto na população como é hoje, e que começou  poucos anos depois com a Casa Kibe e a Kibelândia, no centro (Avenidas São João e Ipiranga) .

Foi uma experiência deslumbrante! Servindo no sistema “refeição completa”, era um desfile riquíssimo de variedades culinárias, com apresentação de extremo bom gosto, que somada à excelente qualidade e à beleza da Arquitetura e da decoração do local, típicas da época, tornaram tudo inesquecível.  Veja que lá se vão mais de 60 anos. Hoje o Almanara é uma rede de vários restaurantes, mas o da Basílio da Gama é o único com o sistema rodízio no serviço, e o local preserva toda a beleza original.

-Omelete gaúcho: em certa época, décadas 1990 e 2000, eu viajava mensalmente a Rio Grande, para administrar a loja que ainda tínhamos e face às condições de saúde e depois do falecimento de meus irmãos que dirigiam os negócios. Cheguei a ser “figurinha” conhecida nas empresas de aviação, devido ao voo, São Paulo – Porto Alegre. E, para obter boas tarifas e otimizar o aproveitamento do tempo, usei muitos voos da madrugada, pois ainda tinha o trecho rodoviário, 320 km, até Rio Grande, para o qual eu mantinha uma Santana Quantum numa garagem próxima ao Aeroporto em Porto Alegre. Este carro servia também para meus deslocamentos em Rio Grande, pois eu ficava em nossa casa na praia do Cassino, e os negócios eram na cidade, a 25 km, além de ter sido útil para parentes e amigos que viajavam para o sul e o usaram muito.


Em uma viagem fui tomar o café da manhã no Cuca´s, a menos de uma hora de Porto Alegre. Marco famoso para todos que fazem este percurso, o Cuca´s destaca-se por somar simplicidade e baixo preço a uma boa qualidade de alimentação e, um ambiente e atendimento   agradável e receptivo. Foi lá que pedi uma omelete “só de queijo”. Veio uma fatia de queijo quente, derretido, no meio do prato. Só! O Cuca´s inventou a omelete sem ovo! Tenho curiosidade em saber o que diriam a respeito o Anquier e o Jackin.

E em São Paulo? Calma! Eu chego lá.

Essas e demais lembranças ainda serão compartilhadas na próxima postagem. São pratos e lugares inesquecíveis que os mantenho muito vivos nas deliciosas memórias gastronômicas.

Continuação na Parte II. Até mais...

18/06/2018

Uma aula de economia



 Prezados,

O povo libanês, descendente dos fenícios, tem como uma das principais características, o talento comercial. Isto se manifesta de várias maneiras no comportamento rotineiro e é usado de forma espontânea, automática.

Posso ser considerado “vergonha da raça”, pois não tenho, neste setor, nada de libanês em meus conceitos e em meus comportamentos. Vou relatar um fato que exemplifica este conceito.

Na minha faixa etária dos 10 aos 15 anos, ainda morando em Rio Grande, precisei ir diversas vezes a Pelotas (a apenas 50 km) para fazer alguns serviços (documentos, livros, apostilas, etc...)  do Camil, meu irmão, referentes à Faculdade que ele cursava.
Ia quase sempre de trem que era eficiente e econômico, além de seguro, uma criança podia viajar sozinha sem cogitar de possíveis violências.


Certa vez, calor e com sede, entrei num bar e pedi um copo de água gelada. Na época não tínhamos a cultura e o hábito de tomar água mineral, que era considerada  tratamento para quem tivesse algum problema de saúde. A água que pedi foi servida e COBRADA. Fiquei surpreso, pois em Rio Grande era comum pedir água (não mineral) em qualquer lugar e não era mercadoria a ser vendida e paga.

Algum tempo depois, já com 15 anos, fui estudar em São Paulo, no Colégio Arquidiocesano. Lá conheci e fiquei muito amigo de outro gaúcho, pelotense, SÉRGIO SOARES OLIVÉ LEITE, que depois tornou-se médico e dono de uma grande clínica psiquiátrica fundada por seu pai, em Pelotas. Mas nossa boa amizade não impediu que aflorasse a velha e famosa rixa Rio Grande e Pelotas, nós “papareias” versus eles, “sebeiros”.


Sempre em tom amigável e brincalhão e mantendo a boa amizade, vinham os comentários e críticas aos “podres” de cada cidade. Então, numa dessas, “soltei” o fato da cobrança do copo d´água, qualificando-o como absurdo, abusivo, desumano, etc... Veio então, por parte do Sérgio, a “aula” de economia que em mim ficou inesquecível:

“Jasel, o dono do bar dispendeu tempo e mão de obra para encher o filtro, depois para passar a água filtrada para a garrafa e colocar na geladeira, depois tirar da geladeira e servir no copo, depois para lavar e guardar o copo. Gastou energia elétrica para gelar, gastou água e sabão na lavagem do copo, etc... E ali era um estabelecimento comercial, seu local de trabalho. Por que não haveria de cobrar?”


Lógica irretorquível foi para mim uma lição de vida. Adotei a mesma lógica na minha vida e em minha profissão de Engenheiro Civil. Tornei-me altamente competente na elaboração de orçamentos, tanto em atividades pessoais como profissionais, e disto tenho muitos exemplos de experiências de sucesso.

Meu bom amigo SÉRGIO. Devo isto à aula que Você me deu no pátio do Colégio Arquidiocesano.

Obrigado, amigos.

09/06/2018

Os Molhes da Barra do Rio Grande



Prezados,


Uma das principais atrações turísticas da cidade do Rio Grande e de sua Praia do Cassino! Imperdível!

No entanto considero difícil decidir o que é mais fascinante, se os atrativos e belezas que tanto encantam os visitantes, ou a magnífica história de sua implantação devida à importância histórica e comercial e por ser uma das maiores obras de Engenharia Portuária do mundo. Vou tentar fornecer a Você, leitor, dados sobre os dois aspectos envolvidos para uma comparação.

1- OS MOLHES PARA OS VISITANTES

A Lagoa dos Patos e o Porto de Rio Grande, um dos mais importantes do país, têm acesso a partir do Oceano através do Canal do Rio Grande. Para garantir a profundidade necessária à navegação foram construídos, a partir das praias de Rio Grande (Praia do Cassino) e São José do Norte, duas muralhas longitudinais de pedra adentrando o oceano em cerca de 4 km. A mais frequentada e de acesso mais fácil é a do lado sul, Cassino. 

Vamos listar alguns atrativos para os visitantes:
-a atração mais pitoresca, por ser atípica: no meio existem trilhos ferroviários por onde correm pequenas vagonetas abertas, da praia até a ponta no oceano. Existem várias, tocadas por vagoneteiros, com capacidade para cerca de dez pessoas.


A energia? Eólica! São dotadas de velas e o vento gera seu movimento. O passeio de ida e volta, com algumas paradas no caminho e na extremidade, demanda cerca de uma hora.

Ao se cruzarem vagonetas em sentidos opostos, uma delas é retirada dos trilhos e recolocada após a passagem da outra.
-outra forma de passeio é caminhando, até uma parte do caminho ou até a ponta para os mais animados.
-o local é excelente para pesca. Muitos acampam nas pedras e até passam a noite inteira para praticá-la. Até a década 1960 assisti ali a vários campeonatos internacionais de pesca, sempre no mês de novembro; não tenho conhecimento de que ainda existam.
-as vistas são magníficas, lindas, de perder o fôlego; já vi muita gente chorando de emoção diante da beleza da paisagem; constitui uma exceção à monotonia visual do litoral gaúcho. 

Adentrando lentamente até quase alto-mar (4km.), vendo de um lado a praia lotada de banhistas e do outro o canal de acesso ao porto com muitos navios grandes entrando, vendo os leões marinhos que se abrigam nas pedras, os golfinhos,  os peixes e os demais animais pulando; apreciando os contrastes dos efeitos visuais e multicoloridos do pôr do sol e do nascer do sol (sim, ou madrugamos ou nos deslocamos da festa ou baile do Clube SAC ou  de outras para ver o sol raiar); tudo isto é de uma beleza indescritível.
-geralmente em época de verão  o mar ali é bastante calmo. Eventualmente deparamos com ondas maiores que ao impacto com as pedras chegam a molhar os visitantes. No inverno já é menos recomendável fazer este passeio. 

Lembro de uma vez em 1958, eu estudante interno em São Paulo, vi uma grande reportagem no Estadão com fotos de uma tempestade no Rio Grande que chegou a destruir os trilhos, que ficaram contorcidos.
-na praia que dá acesso aos molhes, também no verão, forma-se uma concentração de público e de trailers/lanchonetes. Em geral a higiene e a qualidade das bebidas e lanches são muito boas (isto vale posso dizer, para toda a cidade e o Cassino).

Para isto contribui, com certeza, o já renomado padrão de qualidade em alimentação do Rio Grande do Sul, e também meu grande amigo Arizinho Féris quando Secretário da Saúde da Prefeitura do Rio Grande, rigorosíssimo nas exigências sanitárias. Há muito tempo que não vejo e não tenho notícias do “Cabeça” e da Dona Vera, autora do melhor pastel de camarão do planeta; já mereceu até uma citação em crônica do Luiz Fernando Veríssimo. Aposentaram-se? Para entender o porquê do apelido “Cabeça”, não precisa muito: bastaria conhece-lo, dispensa explicações! 

2- OS MOLHES – SUA HISTÓRIA

A cidade do Rio Grande, fundada em 1737 por Portugal, foi o início da ocupação do Estado. Isto se deve à sua localização, estratégica para uma época em que a navegação era o transporte entre a Europa e a América. A cidade está situada na extremidade sul da Lagoa dos Patos, onde  o Canal do  Rio Grande liga o oceano à Lagoa. E, como as características do litoral gaúcho não permitem grandes portos, Rio Grande possui o único porto marítimo do estado.

No entanto, devido às condições físicas e geográficas, tais como ventos, correntes marítimas, conformação das praias, entre outras, o acesso à Lagoa dos Patos sempre foi extremamente dificultado pelas alterações dos bancos de areia no canal. De início, devido às disputas pela posse entre Portugal e Espanha, existia uma importância estratégica militar fundamental para acessar o porto: entre Colônia do Sacramento, fundada por Portugal onde hoje é Uruguai, e o Rio de Janeiro, era necessário um ponto de apoio nos deslocamentos de tropas, afora o porto de Laguna, em Santa Catarina.


A fundação da cidade deu-se com a construção do Forte Jesus Maria José. Posteriormente, tendo o sul já se tornado um grande produtor de alimentos, as trocas comerciais passaram a ter grande importância. Charque, depois carne e trigo, faziam parte deste conjunto. E as dificuldades de acesso eram conhecidas por todos os navegantes e governos do mundo, existindo relatos de navios parados por vários dias à espera de poder entrar, e de muitos navios encalhados. Esta situação, e mais as violentas tempestades em época de inverno, resultaram na denominação de “cemitério de navios” para a região. Os restos do navio Altair naufragado em 1976, na praia a cerca de 20km. dalí, além de serem atualmente uma curiosa atração turística, constituem uma amostra da situação exposta acima.

Rio Grande já havia se tornado um grande centro, e seus dirigentes junto com a Câmara de Comércio faziam muitas gestões políticas para solucionar o problema da dificuldade de acesso. Felizmente o Governador Leonel Brizola, quando governou nas décadas 1950-1960, não conseguiu seu intento de valorizar o porto de Porto Alegre com seu projeto de mais um canal ligando a Lagoa dos Patos ao oceano; os estudos à época revelaram que seria um desastre ecológico, pois iria tornar salgadas as águas da lagoa, com prejuízos imensos. Além, claro, do grande prejuízo econômico para a cidade de Rio Grande.

O século XIX foi muito rico em estudos e projetos para o acesso ao porto. Dom Pedro II, em duas visitas à cidade, fez acelerar os estudos. A execução das obras veio a ocorrer somente  no início do século XX, pois os interesses comerciais envolvidos, face a grandiosidade da obra, geraram tumultos e dificuldades contratuais. As pedras vieram do Município de Capão do Leão, distante quase 100km, transportadas por ferrovia construída simultânea e especialmente para esta obra.

Mesmo os molhes tendo cumprido sua finalidade de prolongar a profundidade do canal até um ponto já profundo do oceano, para os procedimentos de acesso ainda se mantem a necessidade do trabalho conjunto entre o comando dos navios e a equipe de praticagem da barra, existente desde os tempos do império. Não sei se existe exigência legal de contratar um prático, mas a operacional é imprescindível; já aconteceram (raros) casos de comandantes de navios, principalmente estrangeiros, dispensarem estes serviços por economia e gastarem muito mais em desatolar seus navios.

Finalizo com uma sugestão: não se preocupem com o que é mais atrativo, se as belezas do lugar ou sua história fascinante. Visitem!

Os que já conhecem a região, como eu, não se cansam de repetir o passeio.

Aos que ainda não foram, tenho certeza de que terão momentos inesquecíveis.

Abraço.








30/05/2018

Chuí - Parte II



Prezados, 


Existe algo que me dá um imenso prazer. Levar parentes e amigos ao “meu” Rio Grande, conhecer o “meu” Cassino, e muitas vezes fazer uma ida ao Uruguai, seja um “bate-volta” ao Chuí ou com uma esticadinha a Punta del Este e Montevidéu. Já fiz isto muitas vezes. No entanto, quase sempre o prazer acima citado não é imenso, mas apenas parcial.

Por quê? Bem, a região é “zona franca”, com benefícios fiscais; então, como quase sempre existem mulheres no grupo, o tempo é quase todo dispendido na prática daquele esporte feminino preferido: compras, compras, compras.

E ficam prejudicadas as visitas a alguns locais, imperdíveis para mim: a Barra, onde o Arroio extremo sul do Brasil desemboca no Oceano, diversas praias do lado uruguaio, e as duas fortalezas, Santa Tereza e San Miguel. Ambas com história de vários séculos, arquitetura típica da época e elementos fundamentais nas lutas Portugal x Espanha pelo domínio da Região.

Santa Tereza situa-se dentro de um Parque Nacional, à beira-mar, maravilhoso, na rodovia Chuy-Montevidéo, a pouco mais de 20km. da fronteira; San Miguel no sentido oeste,  cerca de 15km a partir de Chuy. Na região, muito plana, situam-se estrategicamente em pequenas elevações, permitindo visão panorâmica de todas as movimentações militares entre Colônia do Sacramento, Rio Grande (onde existia o Forte Jesus-Maria-José) e Laguna, em Santa Catarina.

Ao lado desta segunda fortaleza existe um hotel-restaurante, o Parador San Miguel, visita mais do que obrigatória.  Neste passeio absolutamente TUDO é fascinante: as visões panorâmicas dos campos, a Arquitetura mesclando pedra, ferro e madeira, o significado e os detalhes históricos, aliados ao grande carinho com que todo brasileiro é sempre recebido no Uruguai. São lugares mágicos!


Em meu tempo de estudante na Faculdade, fomos de Rio Grande em um pequeno grupo almoçar no Parador San Miguel. O almoço demorou algumas horas, depois emendamos jogando xadrez por outras tantas horas, naqueles corredores com construção de pedra em arco, apreciando a paisagem enquanto era estudado o próximo movimento das peças do jogo, até voltarmos para Rio Grande à noite. Um programa tão singelo, naquele local torna-se mágico e altamente prazeroso.

Por vezes o grupo se divide entre os interesses de cada um: parte fica nas compras, parte no restante. Na hora do almoço, o Parador San Miguel concorre em excelência com as diversas “parrillas” com a magnífica carne uruguaia. Lembro de uma vez em que conseguimos fazer “tudo”, porque a Nani e eu levamos a Mariana Wajc, sempre grande estudiosa de todos os assuntos, que interessou-se em conhecer em detalhes toda a região: saímos do Cassino às 6 da manhã e conseguimos ver as Fortalezas, o Parador, a Barra e algumas praias, desfrutar um magnífico almoço e fazer shopping à tarde.
 
Em Chui/Chuy a avenida principal tem uma pista no Brasil (Av. Uruguai) e a outra no Uruguai (av. Brasil) com dezenas de lojas e um Cassino, modesto se comparado aos de Punta e Montevidéu, mas, é um Cassino, que qualquer brasileiro para ir precisa atravessar uma fronteira.  A integração é completa.

Rubens Cunha, grande amigo desde os bancos escolares em Rio Grande; companhia sempre agradável, espirituoso, inteligente, tremendo gozador, fez uma sacanagem conosco, seus amigos, e com sua família: privou-nos cedo de sua presença. Diabético, cedo ficou praticamente cego, frequentava amiúde o Chuí (com motorista contratado) para abastecer-se de whisky e da deliciosa carne uruguaia. Já era conhecidíssimo em todas as lojas, açougues e restaurantes. Abusou na falta de cuidados com a saúde.

Um fato simples, mas que tornou-se pitoresco: em julho de 58, passando as férias em Rio Grande, um grupo de amigos estudantes do Colégio Lemos Júnior organizou uma viagem ao Uruguai, fretando um ônibus e indo junto alguns professores. Fui convidado a ir com o grupo.

Na Fortaleza Santa Tereza o zelador levou-nos a conhecer detalhes e contar histórias a respeito; patriota e orgulhoso como todo uruguaio exaltava o grande herói nacional, José de Artigas. Mostrando as dependências, explicava: “aca Artigas estudiava”, “aca Artigas reposava”, “aca Artigas leia”, “aca Artigas comandava”, etc... Nossa colega Neide então perguntou:  “Señor, por favor, adonde era el bañero de Artigas?” Foi uma tirada espirituosa simples, mas por ser dita no momento adequado e na forma como foi, ficou marcada; até hoje, passados quase 60 anos, sempre que se encontram participantes deste passeio, esta tirada é relembrada com muito humor. 

Recentemente, novembro de2014, resolvi ir a Rio Grande para um jantar pelo centenário do colégio onde estudei, o São Francisco. Na ocasião descobri que um grande amigo e compadre, Luiz Fernando Vernalha, possuía uma grave deficiência: nunca tinha ido a Rio Grande. Resolvi corrigi-la, e ele foi junto. Ocorreu então algo triste e traumático.


Fomos a Chuí com o carro que havíamos alugado em Porto Alegre. Como foi decisão de última hora, não fiz a documentação no consulado para autorizar a entrada (desnecessária quando o carro é próprio); e, por ingenuidade ou excesso de zelo, parei no posto uruguaio para informar que iríamos somente até a Fortaleza, a fim de evitar problemas. Fui praticamente assaltado pelo agente, que me tomou R$150,00.

Para entender o significado disto, esclareço que o Uruguai, chamado de Suíça Latino-Americana, sempre teve para mim um significado muito especial. Meu pai, ao vir do Líbano, morou no Uruguai; temos lá muitos parentes queridos; foi um lugar de muito aprendizado para mim, desde criança; enfim, sempre tive um carinho muito grande pelo país que era realmente uma “Suíça”, tudo funcionava à perfeição.

Eu sabia, por noticiários, da decadência a partir dos anos 60. No entanto, “viver” uma situação como esta me fez lembrar um filme sobre o nazismo, onde um personagem é assassinado fria e cruelmente por um oficial nazista, e outro personagem comenta: “você pode saber que existem milhões de mortes violentas e cruéis pelo mundo, e isto te entristece; mas basta VER APENAS UMA para você  desabar.” Foi o meu caso no Uruguai; gostaria de ter dito ao Luiz: “não é este o Uruguai que eu queria te mostrar”. Mas preferi não prolongar o assunto, fiquei no “deixa prá lá”.

Apesar dos padrões terem melhorado e muitos problemas superados, restam alguns resquícios dos períodos negros do país.
Continuo tendo o Uruguai como um lugar de honra em meu coração e em minhas preferências.

Como é bom ter saudades.

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22/05/2018

CHUÍ - Parte I


Prezados,


“Do Oiapoque ao Chuí”.  Este bordão está tão incorporado em nossa língua (...)  brasileira que, mesmo tendo deixado de ser verdade, segue altaneiro na memória de nossa gente, no uso dia a dia, nas conversas, na imprensa, etc. Convém lembrar que o extremo norte deixou de ser o rio Oiapoque, no Amapá. Agora é um monte em Roraima.
Curioso! Por que não se fala “da Ponta Seixas ao...”? Os extremos leste-oeste parecem não importar a ninguém!

E por que quero falar do Chuí, sendo dos quatro pontos o único extremo geográfico verdadeiro e de uso corriqueiro? Porque tem muito a ver comigo, com minha história de vida.

Começa que sou um sulista muito sulista, na imensidão do Brasil nasci a apenas 250 km de lá. Menos do que a distância à “minha” capital, Porto Alegre. Frequento e frequentei muito, desde criança. Nasci em outro extremo, este histórico: sou “papareia”, de Rio Grande, a gloriosa “São Pedro do Rio Grande do Sul”, onde se iniciou a colonização do estado. E também porque entendo que existem aspectos diversos, físicos, culturais, históricos, que valem a pena serem compartilhados.

Começo pela lembrança remota, de criança, da “rodovia” ligando as duas cidades.  Estrada de terra, tão esburacada que o odômetro marcava muito mais do que os 250 km. Porque a viagem era em “zig-zag” para desviar dos buracos maiores e pelos milhares de pequenos aumentos de percurso por cada buraco que as rodas “percorriam”.

Afora este desconforto, o trajeto era fascinante. A imensidão dos campos com todos os tons de verde na planura total da região nos dá uma sensação de infinito. Os animais no pasto e a maravilhosa passagem por uma das mais belas obras de Deus e que felizmente está muito bem preservada, a chamada Estação Ecológica do Taim, também conhecida como “Pantanal Gaúcho”, onde a velocidade é obrigatoriamente reduzida.

Hoje a rodovia é asfaltada, com grandes e monótonos retões, mas a beleza da região segue intocada.
Esta, no entanto, não é a única via de ligação terrestre. A outra, utilizada desde sempre, é a imensa praia, contínua desde a entrada do  canal da barra de Rio Grande (canal que liga o Oceano Atlântico à Lagoa dos Patos) até o arroio Chuí, com cerca de 230 km de extensão.


Os veículos trafegam à beira-mar, onde a areia é lisa e dura, permitindo velocidades acima de 100 km/h. No entanto, a passagem pela praia não é livre de forma contínua. Depende de diversos fatores físicos, como ventos, chuvas, marés, conformação das dunas, etc.

A região é riquíssima em piscosidade, e os pescadores sempre foram os grandes conhecedores das condições de tráfego e da previsão para as horas seguintes. Os leigos (como eu), antes de se aventurarem, consultavam os pescadores no chamado “Barracão”, onde sempre eram encontrados. Este percurso ainda continua sendo absolutamente deserto em cerca de 200 km.

Existem vilas apenas nas  proximidades dos extremos: a Praia do Cassino, no Município de Rio Grande. Hermenegildo (Hermena, para os íntimos), no Município de Santa Vitória do Palmar, cerca de 15 km antes da divisa Brasil-Uruguai e a Barra do Chuí, no Município de Chuí, que há alguns anos era parte de Santa Vitória.

Nós, os rio-grandinos (da cidade de Rio Grande, diferente de rio-grandenses, do estado) falamos com muito orgulho de nossa “Praia do Cassino, a maior do mundo em extensão”. O Guinness, em suas listas de recordes, confirma esta condição. Existem divergências, ora pelos vizinhos do Hermena/Santa Vitória, ora por parte de meu prezado amigo e competente jornalista e historiador Willy Cesar, tentando “desconstruir mitos” sobre Rio Grande. Que vença a verdade, apesar de minha vaidade “papareia” preferir a versão Guinness!

Tenho algumas experiências vividas nos dois percursos.   Carro atolado é a mais comum.  Frequentei muito nossa praia o Cassino, mesmo antes de termos casa própria lá (apesar de um terreno adquirido em 1953, “virou” casa somente em 1981, graças ao nascimento de nossas filhas Cibele e Nani, providenciada pelos avós para combater a “concorrência” das praias catarinenses nas férias de verão).

Os 23 km Rio Grande-Cassino eram vencidos ora por trem, por ônibus ou pela poderosa Raleigh, nossa velha bicicleta, sempre com uma turminha do Colégio São Francisco. Numa dessas decidimos “esticar” até Chuí, via praia. Acampamos por uma noite, com barracas, e assistimos a um espetáculo de grande beleza. Em região completamente deserta, surgiu um grupo religioso tipo macumba, com música, canto, danças e iluminação por fogueiras. O efeito do contraste com o mar, a luz do luar e a imensa praia é magnífico e indescritível.

Quando mudei para São Paulo, como aluno interno no Arquidiocesano, fiz como trabalho de Português uma redação com o relato desta história. Quando a ALAEP, a academia literária do colégio, fez um concurso para novos membros, não cogitei de me inscrever, mas o Irmão Ático Rubini disse que eu deveria fazê-lo. Retruquei que não tinha nenhum material feito para a chamada “defesa de tese”, e ele disse para colocar a redação acima citada. Até me transformou num “gênio” que nunca pensei ser, graças ao título.

Eu havia colocado “Pedalando pelas praias sulinas”, que ele considerou genial, pois o ato de pedalar representa uma repetição que eu já coloco no título, ao usar três palavras iniciadas com “P”. Estes literatos pensam cada coisa...

Uma vez fomos passear e visitar parentes no Uruguai, via praia; estavam minha mãe, meu irmão Camil, o José Curi (“Zé Coruja”), e um parente do Líbano em visita ao Brasil, Georges Nassar (ou Jorge);  este era um intelectual, filósofo, escritor. Às 7 da manhã o pescador nos indicou bom caminho por cerca de 3 horas e meia, suficiente para chegarmos ao Chuí.

Depois teria mudança de vento, viria o temido vento sul, e chuva. Mas, sabe o garoto que nos oferece amendoim grátis na mesa do bar frente à praia, para depois voltar vendendo? A natureza exuberante fez isto conosco! Ofereceu uma praia maravilhosa, infinita, muito sol, só nossa com seus cerca de 200m de largura e muitos km de extensão, algo absolutamente novo e fascinante para um libanês. Impossível resistir! E impossível acreditar no que o pescador havia dito, mesmo sabendo de sua competência e conhecimento. Foram banhos de mar deliciosos, uma festa para o primo visitante.

Resultado, o previsto: chegou o temido vento, a chuva, o fim da faixa de praia trafegável, o carro sendo “empurrado” para as dunas; era um carro americano, Lincoln Continental 49, feito para as rodovias americanas, com o padrão Ford da época, distribuidor “lá em baixo”, que logo molhou-se e o carro pifou. Por sorte achamos, não muito longe, um ermitão vivendo isolado, com um carro dos anos 20, sem os pneus; recolocou-os, pediu um absurdo de dinheiro para nos rebocar até o Hermena, e lá fomos.

Uma imagem cômica, um carro com mais de 30 anos de idade rebocando um “novíssimo” de apenas 9 anos. No Hermena ficamos numa pousadinha bem primitiva, pois o mecânico só iria atender no dia seguinte. Uma festa para o Jorge, que entre outras peripécias barbeou-se usando a cristalina água do córrego como espelho!

Voltando ao Líbano, publicou um artigo em revista de grande circulação, narrando o ocorrido com muito entusiasmo, sob o título “Une aventure au  Sud du Brésil, sur la côte de l´Atlantique” – Uma Aventura no Sul do Brasil, na Costa do Atlântico.  

Essas e outras lembranças continuam na próxima postagem (CHUÍ - Parte II)

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